quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Yangshuo by bike - o lado rural

Aterrámos em Guilin e procurámos  o motorista que nos levaria até Yanshuo, uma zona rural  a 70 Km do aeroporto na província de Guangxi. 

A paisagem de Yangshuo faz parte do nosso imaginário sobre a China pois tem sido retratada em muitas imagens e representações do país, inclusivamente na parte de trás das notas de um yuan, nas pinturas dos painéis de milhares de restaurantes chineses e em mais uma imensidão de outras gravuras que ilustram o país por aí.

Ao contrário da ideia preconcebida que tínhamos sobre a cidade, que na nossa mente seria um vilarejo calmo e melancólico, Yangshuo surpreendeu-nos pelo seu caos á boa maneira asiática. Imensa gente, mercados nocturnos sobejamente animados, turistas chineses á pazada, motoretas ruidosas e tuk tuk fumegantes com fartura.

No entanto fora da cidade temos o verdadeiro cenário bucólico que nos levou á região: os mares verdes das imensas plantações de lotus e arroz que se estendem pelo sopé dos penhascos calcários de cumes arredondados escondidos na penumbra.

As estradas estreitas  levam-nos ás pequenas povoações e convidam a caminhadas ou passeios de bicicleta.

Os arrozais imensos ladeiam o caminho onde o silencio é a nota dominante e os rios Li e Yulong que os banham sugerem passeios em jangadas de bambu.

Ficámos alojados numa guesthouse cheia de charme gerida por um simpático casal alemão que comprou um aglomerado de casebres e o transformou neste espaço acolhedor e original.

Já tinha conhecido a guesthouse "the giggling tree" através de vários blogs de viajantes e tornou-se quase obrigatória a nossa passagem por lá.

Os quartos simples de rede mosquiteira pendurada sobre as camas trazia-nos a lembrança de que estamos numa região onde, ainda que remotamente, surgem alguns casos de malária. Fez-me estremecer.

Depois das experiências com as profilaxias aquando da nossa viagem ao Camboja,  e uma vez que esta zona já estava considerada fora de perigo pelo UK, optámos por não fazer medicamentos desta vez. Afinal o fármaco para esta zona tinha tantos efeitos secundários graves que nem sei o que nos assustava mais.  Além disso só ficaríamos por 3 dias.

Decidimos assim comprar repelentes com a percentagem recomendada de DEET, pulverizar-nos a toda a hora, utilizar as espirais cedidas pelo hotel e confirmar os quartos e as redes mosquiteiras antes de dormir.
E felizmente correu sempre tudo lindamente.

No dia seguinte alugámos bicicletas e resolvemos aventurar-nos pela zona. É mais ou menos o must-do de Yangshuo e não quisemos deixar de ter esta experiência. Assim e  para poupar as miúdas  de um esforço excessivo optámos por bicicletas tandem. E quanto a isto só tenho uma coisa a dizer: da próxima vez que tivermos uma destas ideias luminosas por favor espanquem-nos. O que estas maravilhosas e ágeis bicicletas nos proporcionaram foi no mínimo surreal. Não tínhamos noção do que iríamos sofrer...

Chovia horrores! Envergámos as magnificas capas modelito saco-de-plástico típicas destas andanças (as quais se romperam ao final dos primeiros metros) e, com os nossos maravilhosos chapéus cónicos no cocuruto  lá fomos felizes e contentes (valha-nos isso) nas lindas bicicletas pasteleiras duplas sem mudanças e com rodas de triciclo pela estrada fora.

O Luis pedalava literalmente de cócoras e com os joelhos a bater no guiador... ou pelo menos foi o que tentou fazer nos momentos em que não estava parado a pôr a corrente no lugar, o que acontecia quase a cada quilometro...

Quanto ao trajecto não sabíamos muito bem qual escolher mas queríamos visitar a moon hill, uma montanha cujo cume perfaz um arco e até á qual podemos subir.

Falámos sobre isso na recepção do hotel e foi-nos gentilmente cedido um pseudo-roadbook que de facto foi uma mais valia para não nos perdermos (tanto) nos arrozais...

Abrimos as primeiras folhas do roadbook e surgem as primeiras indicações: a foto do alemão, dono da guesthouse, parado num cruzamento de braço esticado para a esquerda apontando a direcção. 

Segunda foto: o alemão noutro cruzamento de braço esticado para a direita a indicar o caminho. 

Terceira foto: mais uma vez o alemão, mais uma vez o dedo espetado para um lado qualquer. 

E assim sucessivamente, retrato após retrato, fomos seguindo as direcções tentando identificar o local de cada foto á nossa passagem. 

Um senão: as fotos foram tiradas na época seca e estavamos em plena época de chuvas. Ou seja: estradas submersas, trilhos alagados e toda uma infinidade de obstáculos não previstos dificeis de percorrer ainda mais naquilo que se poderá chamar tentativa frustrada de bicicleta. 

Tencionávamos com isto fazer uma pequena volta de 25 km até á moon hill, e, ao contrário do que esperávamos esta distância ridícula levou-nos praticamente o dia todo já que atascámos a cada pedalada. Na verdade tenho certeza certezinha  que se tivéssemos ido a pé teria sido mais rápido...

Não foi um passeio qualquer. Foi uma aventura, uma odisseia, uma proeza dos diabos!
Enquanto empurrava a minha bicicleta pelos trilhos dos arrozais acima tentando ultrapassar a imensidão de lama pegajosa que sorvia as rodas da minha pseudo-bicicleta,  a corrente do Luis saltava mais uma vez, a Rita perdia um chinelo numa poça, a noite caía cada vez mais escura e a chuva ficava cada vez mais forte. Perdemos a estrada algures debaixo do rio e pedalámos com água pelas canelas, tirámos fotos enlameados, encharcados a escorrer água e suor por dentro e por fora das nossas capas plástica mega fashion.

E quando folheávamos o nosso roadbook não conseguíamos deixar de soltar uma gargalhada nervosa ao ver o numero de retratos do alemão que faltavam percorrer. 

Mas ninguém esmoreceu. Nunca conseguimos desmanchar o sorriso parvo de orelha a orelha que insistia em se manter escarrapachado nas nossas caras.  Riamo-nos do ridículo uma e outra vez gozando com a situação. Pedalámos em conjunto nas subidas com trejeitos de marcha militar ou cantámos sonoramente nas descidas.
Até que cheguei á base da moon hill e vi que, em cima de todo este esforço tinha de subir 800 degraus. Espumei, bufei e logo depois senti-me pequenina quando as miúdas no seu maior animo tentaram persuadir-me a não desistir. E subi enquanto elas pulavam contentes á minha volta como se os 800 degraus fossem a mais agradável das descidas.

Chegámos já escuro ao hotel. Eu tinha as pernas a tremer do esforço daqueles míseros 25 km que se revelaram enooooormes. Mas estávamos felizes. Foi um momento daqueles que se vivem num só dia mas se recordam para sempre e sobre os quais se fala atabalhoadamente horas a fio sobrepondo as palavras umas ás outras sem que se consiga relatar fielmente as emoções. Se queríamos experiências em família este dia foi sem duvida a ultimate experience.




sábado, 4 de outubro de 2014

Xi'an debaixo de chuva

Chegámos a Xi'an já de noite e fomos directos para o hotel. Ficámos um bocadinho desiludidos com a viagem. Não era suposto irmos super-ultra-mega rápido? Tipo velocidade do som ou da luz ou qualquer coisa assim? Bullet train, they said... E depois atingimos apenas uns míseros 246 km por hora segundo o placar luminoso que nos puseram á frente dos olhos....really???? 

Pronto...ok...até foi depressinha e é claro que bem mais rápido que os 2 comboios anteriores, afinal reduzimos  para 4 horas a viagem de uma noite...mas ainda assim estávamos á espera de uma experiência a alta velocidade e mais radical.  Ou pelo menos tão depressa quanto a nossa inconsciência sobre o assunto permite :) Não deixou no entanto de ser mais uma boa experiência em familia. Afinal esta foi a nossa estreia no TGV.



No dia seguinte resolvemos visitar o complexo dos afamados guerreiros de terracota a cerca de meia hora de distancia da cidade de Xi'an.

Este é sem duvida outro dos ex-libris da China e o principal ponto de interesse da cidade. Foi também o que nos fez passar por lá, assim como a muitos outros turistas. 

O exército dos guerreiros de terracota é sem sombra de duvida  uma das maiores descobertas arqueológicas do mundo. 

E esta impressionante descoberta deu-se por acaso quando, algures no ano de 1974,  os aldeãos da zona decidiram fazer  um poço para combater uma particular época de seca.   

Este exército é composto por um largo conjunto ( cerca de 7000) estátuas em terracota que representam os soldados e cavalos de um exercito, em tamanho real, o qual  se estima estar naquele local para guardar o túmulo de um imperador da dinastia Qin até agora nunca descoberto.

Esta imensidão de estátuas está dividida entre três poços: o primeiro alberga 72 estátuas, o segundo 1300 e o ultimo o impressionante numero de cerca de 6000, dos quais apenas 2000 estão expostos.

Este museu é um work in progress. Enquanto passamos ao redor da imensidão de estátuas, umas inteiras outras em cacos, observamos os arqueólogos a trabalhar construindo autênticos puzzles.

Tanto que já foi feito e tanto ainda por fazer.


Cá fora vendem-se estatuetas grandes e pequenas entre muitos outros recuerdos. Tiram-se fotos junto a replicas de tamanho real enquanto a chuva desaba impiedosamente sobre as cabeças  de quem passa.

Embrulhámos mais umas estátuas, apanhámos o autocarro que nos devolveria ao centro de Xi'an e aproveitámos a tarde para ver a cidade.


Xi'an é uma cidade muito bonita. O centro fica mais uma vez dentro de uma muralha antiga. Desta vez a muralha é bastante larga o que possibilita passeios no seu topo ao redor da cidade. É possível inclusivamente fazê-lo de bicicleta  a qual pode ser alugada no topo da própria muralha. É um passeio muito agradável, e tentámos fazer na manhã seguinte quando o sol já espreitava.

Infelizmente tivemos de descer pouco tempo depois de comprar o bilhete para visitar a muralha pois o Luis teve um ligeiro episódio de cólica renal e por isso optámos por regressar ao hotel para que pudesse aliviar a dor com uma bolsa de gel quente que já trazíamos nas mochilas para esse efeito.

Esta cólica renal tinha dado um arzinho da sua graça um mês antes de viajarmos. 

Depois de várias eco-grafias confirmou-se uma pedra num rim, mas o Luis optou por mesmo assim fazer a viagem. Por este motivo trouxemos um pequeno arsenal de dispositivos anti-colica, anti-pedra e anti-stress-por-causa-da-colica-e-da-pedra: emplastros, bolsas de gel, comprimidos sos e tudo o resto que nos fizesse sentir seguros caso se desse um momento de crise. 

Claro que levámos a viagem sempre um pouco ensombrados pela dita pedra mas felizmente  só houve uma cólica nesse dia e por pouco tempo. Ufa! Enfim... depois de tanto trabalho é bom que o raio da pedra seja preciosa...


Foi uma pena não termos percorrido as muralhas ao redor de Xian. Pudemos ainda ter uma noção dos telhados cinzentos antigos, de pontas reviradas e das ruelas escondidas que se vêem de cima.

Antes disso porém pudemos visitar o Big Goose Pagoda,  um pagode situado na zona mais moderna da cidade construído para albergar os sutras budistas quando estes foram trazidos da India.

Chegar lá deu direito a uma voltinha de tuk tuk numa motoreta tão velha e tão lenta que acabou por morrer a meio do caminho e tivemos de terminar a viagem a pé...

O tuk tuk é uma alternativa pitoresca para ver a cidade. Muito mais radical que o TGV mesmo que com menos velocidade.

Além disso sai sempre baratinho quanto mais não seja porque ficamos a meio do percurso.

E ainda podemos empurrar a mota para um final de trajecto ainda mais emocionante...

Junto ao monumento apinhavam-se muitos turistas asiáticos que mais uma vez adoraram tirar-nos fotos.

Acho mesmo que fomos mais fotografados do que o próprio pagode, modéstias á parte.

Tiraram fotos ás miúdas, a mim e ao Luis, juntos ou separados.

Punham-se ao lado, com ares de amigos chegados e com direito a mão no ombro ou filhos ao nosso colo. 

Não consegui deixar de estabelecer comparações com as fotos dos casamentos em que os noivos estão estáticos de sorriso amarelo em riste e só mudam os convidados.
Não há melhor comparação. E ali estávamos nós: os noivos....

Nessa noite visitámos ainda o mercado nocturno do quarteirão islâmico. Trata-se de mais um dos muitos mercados nocturnos que proliferam por toda a Ásia, desta feita oferecido pela comunidade islâmica da cidade. 

E é giro ver as diferenças. As mulheres chinesas de cabeça coberta com um hijab, as comidas asiáticas com laivos árabes, as sementes de girassol vendidas no olho da própria flor, os frutos secos vendidos a peso e muitas outras coisas diferenciam este mercado nocturno de outros espalhados pelo oriente e faz valer a pena uma visita.

Adorámos esta cidade por tanto que nos oferece: o estonteante exercito de guerreiros de terracota qual estátuas mudas guardando um túmulo, que de tão bem guardado ainda nunca ninguém o descobriu; as ruas modernas cheias de lojas cosmopolitas e centros comerciais de luxo lado a lado com as galerias chinesas; a historia que rodeia a cidade em forma de muralha de pedra que se confunde na penumbra cinzenta; o mercado islâmico fervilhando de gente com cheiros, luzes e vida; as fotos que nos pediram para tirar e o hábito da população em sacar o telemovel para tudo, nem que seja para nos explicar o melhor caminho para qualquer lado pelo google maps.

Gostámos muito. Queriamos lá passar mais um dia mas não havia tempo a perder. Afinal também estávamos desejosos do dia a seguir. :)

Montanhas, arrozais, passeios de bicicleta...mais um dia e chegaríamos a Yangshuo :)

E a expectativa era alta...


sábado, 20 de setembro de 2014

Pingyao - Um vislumbre da China autêntica

Chegamos a Pingyao pelas 6 e pouco da manhã depois de muitas voltas no beliche enquanto tentava respirar por baixo da almofada com que me abafei em vão para não ouvir as chiadeiras que soaram a noite inteira. 

Não sei como as crianças conseguem esta proeza de cair redondas na cama alheando-se de qualquer som mais estridente...Adorava ter tido essa capacidade nesta noite de comboio. 

Meio estremunhados lá saímos da estação para encarar um cenário com algumas semelhanças a Datong: uma avenida larga que se estende á nossa frente com a estação onde nos encontramos de topo. 

As fotos de uma localidade e outra não serviriam para passatempo de " descubra as diferenças" só porque desta vez estava tudo em obras. Como aliás em muitos outros locais da China.O país está em crescimento á grande e á chinesa. Em franca expansão. Tudo está em obras e por todo o lado nascem novas avenidas e  novos e grandes centros comerciais.

Mais do que a pequena Pingyao precisa para já, mas perspectivando um futuro não tão distante quanto isso onde se vislumbra um acréscimo do turismo na região.  Mas para já somos poucos ocidentais á mesma. 

Por poucos yuan, largámos as mochilas numa loja perto da estação e procurámos a zona velha que estava  escondida entre muralhas num quarteirão mais á frente. Trespassámos  os portões pesados que separam a China antiga da mais moderna. Que separam o passado do presente. 

Imediatamente ficámos rendidos ao encanto deste centro histórico que detém actualmente o merecido titulo de património da humanidade e é um dos patrimónios urbanos mais bem conservados do país: uma vila datada do século XIV com edifícios da dinastias Ming e Qing muito bem preservados. 
Um tesouro arquitectónico que nos mostra como se vivia antigamente. Como é a China autêntica. Ou pelo menos como era...

Fiquei particularmente deslumbrada com as antigas lanternas chinesas penduradas nos telhados. Tive em miúda, umas luzinhas para a arvore de Natal igualzinhas que nem sei exactamente como foram lá parar a casa ( ainda não havia lojas do chinês em Portugal por essa altura :P) e na verdade já nem me lembrava delas.   Adorei ver as originais que serviram de inspiração ás minhas luzinhas de natal. Que lindas eram as ruas de pedra, ladeadas pelas casas de tijolo cinzento com os seus telhados da mesma cor e as suas lanternas vermelhas a contrastar.

Quando chegámos a vila estava adormecida e silenciosa. Poucos espaços estavam abertos. Entrámos numa guesthouse numa das ruas mais centrais, onde um autocolante alusivo á Lonely Planet nos convidou a entrar. Confortávelmente instalados devorámos um saboroso western breakfast que nos trouxe os sabores ocidentais pelos quais já ansiávamos há dias após muitas tentativas frustradas em acertar com refeições. Adorámos entupir-nos de panquecas e torradas :) e não ter de comer noodles ao pequeno almoço...

Esperámos que a vila acordasse enquanto bebericávamos um café expresso preguiçosamente.
E que giro foi assistir ao seu despertar.

As lojas abriram estendendo bancas na rua e num ápice o aspecto adormecido das ruas desapareceu entre essa agitação.

A vila deixou de ser um aglomerado de antigos edifícios de pedra cinzenta e encheu-se de cor. Pacheminas,chapéus, estatuas, máscaras, leques, e toda uma infinidade de recuerdos coloridos pontilharam as entradas das pequenas lojas.

Assavam-se bolinhos fumegantes em carripanas velhas que rapidamente encheram todo o quarteirão de aromas adocicados. Longe das quinquilharias e chinesices das lojas Pequim, Pingyao tornou-se uma tentação para nós.

Perdemo-nos essencialmente nas estatuetas, máscaras de madeira e malas. Perdi-me á séria pelos malas, o rosário ou terço oriental utilizado por monges e ioguis para a entoação de mantras (japamala).

Uso muitas vezes ao pescoço um mala de 108 contas que adoro, feito em sementes de Rudraksha que comprei há uns anos em Portugal depois de muito procurar.

Estas pequenas sementes rugosas estão associadas a uma lenda de Shiva,o criador do Ioga.
Segundo a lenda, após uma meditação de compaixão pela humanidade, Shiva chorou e verteu lágrimas no chão. Dessas lágrimas nasceu a arvore de Rudraksha cujo fruto protege estas sementes e que são por isso conhecidas como  lágrimas de Shiva.

Há quem as conheça também por sementes da Bodhi tree, a árvore sob a qual Buda atingiu a iluminação e muito embora não o sejam exactamente, a verdade é que a elas se atribuem várias crenças auspiciosas e poderes curativos que não me vou por agora aqui a enumerar. Mas concluindo, estes malas sempre foram cruzando comigo nas minhas pouco assíduas práticas de Ioga e sempre quis ter um.

Mas encontrar um mala de Rudraksha em Portugal não é tarefa fácil e os preços dos que aparecem são muito pouco convidativos. E ali em Pingyao o dificil era mesmo escolher perante a infinidade deles: de vários tamanhos com sementes de vários gomos, polidas ou rugosas, com ou sem outros ornamentos.

Enfim...acabei por trazer uns quantos :P.


Mas compras á parte adorámos este dia. Pois é, minha gente: vale mesmo a pena visitar Pingyao. Justifica em grande escala 2  noites mal dormidas no chocalhar dos comboios, o encontro imediato de 3º grau que tivemos com as casas de banho nas carruagens e o banho que não tomámos por 2 dias. E tudo isto para poder ver este sitio maravilhoso.  Ao final deste dia pode dizer-se que estaríamos mais mal cheirosos, é verdade, mas claramente muito mais felizes e realizados. Faria tudo outra vez sem a mais pequena sombra de dúvida.

Ao fim do dia atravessámos a cidade para a estação de TGV que se situava no outro extremo da cidade, carregados com um saco extra e algum peso adicional nas mochilas. 
Infelizmente não tínhamos conseguido bilhetes em segunda classe...Que azar, lá tivemos de ir em primeira ;)

Refastelados, de cadeira reclinada e perninhas elevadas largámos Pingyao no Bullet train. Em alta velocidade. Até Xi'an.





terça-feira, 16 de setembro de 2014

Datong

Nessa noite deixámos Pequim. Estava prometida uma chuvada  para esse fim de dia e assim foi: começou de mansinho e em breve caiu torrencialmente abatendo-se sobre a cidade com direito a relâmpagos brilhantes, trovões estridentes e tudo o mais que pode vir nestas demonstrações de poder da Natureza.

Já com os bilhetes na mão ( que para meu desespero demoraram até á véspera para aparecer) pusémos as mochilas ás costas e partimos para o buliço da estação a fim de apanhar o comboio nocturno que nos depositaria pela madrugada em Datong,  um vilarejo desterrado de tudo algures na província de Shanxi, no interior da China.

Á porta da estação a confusão era imensa. Todos corriam a arrastar malas, sacos e saquinhos em direcções tão diferentes que tudo nos pareceu caótico de imediato. Todos fugiam da chuva e tentámos fazer o mesmo. A diferença é que ao contrário de toda aquela gente nós não sabíamos muito bem a direção a tomar.

Não era possível abrigarmo-nos na estação até saber informações pois para entrar é necessário passar a bilheteira que está fora do edifício.  Mas nós já tínhamos bilhetes e não identificávamos o local  onde devíamos mostrar os bilhetes para entrar. Andámos simplesmente ás voltinhas debaixo de uma enxorrada capaz de encharcar os ossos, a alma e o ego enquanto tentávamos interpretar qualquer coisa entre tantos caracteres chineses.

As miúdas riam-se do ridículo da situação. As cabeças encharcadas, as mochilas em vias de o ficarem também, os pés chapinhando dentro dos ténis a cada passada que dávamos no chão alagado que se estendia á nossa frente.

Por fim lá conseguimos entrar arriscando a bilheteira mais próxima e seguindo depois os dedos indicadores que nos iam sendo apontados. E uma vez lá dentro... voltámos a ficar á toa. Mais uma vez  o letreiro do átrio que indicava as plataformas e destinos de cada comboio estava totalmente em Chinês.
Ok - pensei- não stressar. Procurámos pelo numero do comboio. Mostrámos os bilhetes a alguém que mesmo sem falar inglês soube intrepertar o bilhete e mais uma vez espetar o indicador e apontar a porta certa... e pudemos respirar fundo enquanto esperámos pelo momento de embarcar com mais uma centena de outros passageiros que se espalhavam pelo chão da estação.

Graças á agencia chinesa que eu contactei tinhamos 3 lugares assegurados numa cabine de 4. Mas o outro desgraçado ( o Luis, claro está) não tinha conseguido lugar no mesmo compartimento e estava desterrado noutro qualquer junto com outras três pessoas.

O desafio seria por isso conseguir persuadir quem lá estivesse a trocar de lugar. Isto por gestos, claro...nunca gesticulámos tanto na vida. Aliás os jogos de mímica em portugal, que tanto me divertiram em serões entre amigos, ganharam toda uma nova dimensão depois desta incursão á China.

Entrámos e lá estava o nosso compincha chinês confortavelmente instalado na suposta cama do Luis, deitadinho refastelado, de chineloca de quarto já enfiada nos pézinhos e tudo...
Demos inicio a mais uma sessão de mímica.
As crianças puseram o seu melhor ar de cachorro abandonado á porta da igreja com um mix de olhares de gato das botas do Shrek e de mãos postas repetiam ininterruptamente "please please please" enquanto eu e o Luis mostrávamos os bilhetes murmurando um inglês capaz de ser entendido por qualquer Chines menos poliglota: you there, me here!...e mais uns quantos"please please" para atenuar a coisa.

Não sei se foi por de facto entender o que pedíamos ou por ter medo que estes ocidentais estranhos e barulhentos lhe pudessem estragar uma prazenteira noite de sono, a verdade é que agarrou nos seus sapatinhos e trocou logo de lugar sem que tivéssemos sequer de nos esforçar muito.

A partir daí foi relaxar e desfrutar a viagem. As miúdas, que estavam muito expectantes com a experiência de dormir no comboio tardaram a adormecer. Mas depois do excitex inicial o sono acabou por levar a melhor. E muito embora o comboio chocalhasse imenso e fosse muito barulhento a verdade é que a noite não foi de todo desagradável.

Mas não vamos falar da casa de banho, ok????  ...............de fugir aos gritos! Ok...apenas uma frase: a pior casa de banho que já vi na vida!

E "muita terra" depois eis que chegámos a Datong.
Se em Pequim o ocidental é uma ave rara, em Datong somos extra-terrestres. Tudo parava á nossa passagem e nem fotos pediam para tirar. Limitavam-se a olhar espantados como se uma nave pejada de aliens tivesse aterrado na principal avenida da localidade. Passámos inclusivamente por uma criancinha que de tão assustada de nos ver deu um passo atrás e agarrou-se ao braço da sua mãezinha.

A cidade tem muito pouco para ver. O nosso grande interesse em passar por lá prendia-se na visita a Hengshan Mountain a cerca de 70 km dali onde fica o Hanging temple, um templo budista construído a 50 metros do chão, na parede de um precipício.

É um local maravilhoso. O templo é composto  por uma fachada de madeira ornamentada como que suspensa no penhasco e assenta apenas em finos pilares de madeira. Uma maravilha da arquitectura da época, com mais de 1500 anos portanto,  e que apesar do seu aspecto tão frágil e delicado se mantém tão maravilhosamente preservada por todo este tempo.

Mas visitar o seu interior é uma experiência vertiginosa. Questionamo-nos até quando se manterá firmemente agarrado á rocha, até quando resistirá ao peso das centenas de turistas que o visitam diáriamente amontoando-se nos seus frágeis varandins... Até quando? 
Pelo sim pelo não, não resistimos a apressar o passo na descida.

E acima de tudo não resistimos a ficar fascinados com a grandeza deste pequeno templo. Posso dizer com muita franqueza que foi uma das coisas que mais me maravilhou nesta viagem.




Deixámos a Hengshan Mountain para trás e rumámos para as Yungang caves. A mim cativou-me muito mais o templo encavalitado na montanha pela sua originalidade, mas na verdade são estas grutas que levam os turistas á região.

Trata-se de um conjunto de 53 grutas situado a mais ou menos 20 km de Datong, onde existe um conjunto de milhares de estátuas de Buda. Cada caverna ostenta um Buda gigante e vários outros mais pequenos perfazendo no total cerca de 51.000 (!) estátuas. A maior de todas mede (apenas!) 16,8 m. Vale muito a pena a visita.

Uma vez que as cavernas e o templo são em direcções opostas quando se parte de Datong, pensava que teríamos de fazer uma visita á tarde e outra de manhã, mas acabámos por resolver tudo durante a manhã o que nos deixou uma tarde inteira para passear pela cidade. Só que infelizmente Datong não tem mesmo nada para ver.

E, na verdade foi de todos os sítios por onde passámos nesta viagem o que nos deixou mais desconfortáveis. Foi talvez o local onde nos sentimos mais traídos pelo nosso aspecto ocidental  que não nos deixou passar despercebidos em lado nenhum. Todos paravam para nos ver passar. Todos saiam das lojas para nos espreitar á porta. Sem fotos, sem sorrisos. Só olhares mudos e inquisidores. Depois de várias pequenas voltas na rua principal acabámos por desistir e entrámos num Kentucky Fried Chicken perto da estação á espera de fazer tempo para o próximo Comboio. E mais uma vez entrámos e todos pararam de comer para olhar para nós.

Quando a noite caiu dirigimo-nos para a estação que já tinha acendido as luzes da sua fachada alternando a cor a cada  minuto.

Enfiámo-nos no comboio e esperámos a sua partida. Pingyao esperáva-nos.










segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Beijing...ou o tal sitio que fica ao lado da Grande Muralha da China

Ni hao!!! Acabámos de chegar de uma viagem á China! Ainda estamos com as emoções ao rubro e vou aproveitar a pedalada para tentar resumidamente falar desta maravilhosa experiência, já que não pudemos ir dando novidades via facebook por este estar interdito por lá.


Aproveitámos uma óptima promoção da Fly Emirates que vimos há uns meses atrás e comprámos passagens de Lisboa para Pequim com regresso por Hong Kong. O voo faria escala no Dubai o que me permitiu também esticar o stop-over para 4 dias pelos Emirados sem qualquer custo adicional ;).

A ideia era , para não variar, aproveitar o tempo da melhor forma tentando conhecer um pouco de cidade,  visitar o interior da China (que era a grande curiosidade) e rematar com uns dias de descanso na praia para que as miúdas recuperassem o fôlego e pudessem dizer-nos que tinham gostado das férias mesmo depois de as termos esfalfado de um lado para o outro...

Milagrosamente conseguimos empacotar tudo em três mochilas e lá voámos para Pequim num voo que durou o que nos pareceu uma eternidade: 7 horas até ao Dubai, escala e mais 7 horas até ao destino final.

Que dizer de Pequim além de que detestei? A cidade é desinteressante e infelizmente submersa num smog horrendo que em poucos minutos deixa a nossa garganta irritada e todos os chineses a puxar escarretas á nossa volta. :/ Um ambiente não muito agradável, lá está.

Salvo um ou outro centro comercial com lojas de luxo, as lojas que ladeiam as avenidas também não despertam qualquer interesse e nem nas avenidas principais deixamos de ter a sensação de estar numa grande loja do chinês.

O turista ocidental é uma ave rara no meio de tantos orientais e por isso muitas vezes assediado para tirar fotografias e selfies com os locais, como se de um monumento se tratasse.

A comida foi outro ponto fraco. Nas nossas passagens pelo sudeste asiático sempre adorámos quase tudo o que nos punham á frente e na China simplesmente não nos conseguimos habituar.
Já não podíamos ver dumplings cozidos e noodles afogados em caldos. E principalmente já não podíamos com o cheiro de todos aqueles cozinhados a vapor.


Inicialmente pensávamos que não acertávamos na ementa já que muitas vezes não percebíamos patavina do que dizia, mas depois chegámos  á infeliz conclusão que era mesmo tudo mau. Ou pelo menos mau para o nosso gosto.

Salvou-se um pato á pequim comido num restaurante típico ( ma-ra-vi-lho-so).

De resto a alimentação tornou-se uma dificuldade para as crianças pois muita da oferta era condimentada e picante.

Pode resumir-se que a gastronomia foi uma experiência á parte: basicamente os papás passaram fome e as miúdas tornaram-se amigas chegadas do Kentucky fried chicken... (aaahhhhh...nada como mostrar ás nossas filhas as maravilhas da gastronomia dos países que visitamos...)

Por fim houve ainda a grande dificuldade em nos fazermos entender,  já que  o Inglês é uma lingua estranha inclusivamente nos hoteis. Mas isso, tenho de admitir, fez com que toda esta experiência fosse ainda mais interessante .

Mas nem tudo são pontos fracos. Um ponto a favor foi sem dúvida a consciencialização da população face á poluição. Felizmente vêm-se medidas para reduzir o smog e todas as motorizadas são eléctricas e silenciosas.

As pessoas são simpáticas e de sorriso fácil e, mesmo quando nos põem os seus filhinhos ao colo para mais um retrato falando sem que percebamos nada, não conseguimos deixar de retribuir um sorriso.

Dá vontade de sorrir e até mesmo e rir, já que os ditos filhinhos quando bebés não usam fralda. Vestem calças com uma abertura no...rabiosque não vá a vontade apertar.  Assim em qualquer sitio o "piqueno" se agacha e se alivia sem necessidade de gastos em fraldas descartáveis que muito pesam nos orçamentos familiares.

Adicionalmente, o ambiente agradece, já que uma fraldinha dessas demorar uns míseros 500 anos a desaparecer da face da terra. Se avaliarmos a densidade populacional por aquelas bandas parece-me que se poupa ao nosso planetinha azul muitos aninhos de trabalho.

Mas enfim...resumindo: visitaria novamente? Sim, claro. Sem dúvida! E porquê? Porque AMEI a Grande muralha da China e a Cidade Proíbida. E esses dois ex-libris da cidade de Pequim valem sem dúvida toda a viagem. São definitivamente dois pontos fortes de peso. Recomendo e muito pois são colossais! 

A sumptuosidade da cidade proíbida não nos deixa indiferentes e enquanto deambulamos entre as várias galerias do complexo conseguimos, apesar dos milhares de turistas asiáticos,  imaginar como seria a vida dos imperadores das dinastias Qing e Ming algures no ano de 1400 e troca o passo.

Passámos uma manhã por lá e depois passeámos pela Wangfujing Dajie, a principal artéria da cidade. A principal atracção desta zona é o Donghuámén market, o local certo para todos os que querem provar, ou apenas conhecer as mais excêntricas iguarias chinesas.

Ali pode provar-se basicamente todo o tipo de bicharocos viscosos ou estaladiços, fritos, grelhados ou cozidos ao vapor. Enfim...a tentação dos mais atrevidos.

Não foi o nosso caso. Sempre gostei de provar as comidas de rua e confesso que ia mentalizada para trincar um insectozinho crocante. Qualquer coisa como um gafanhoto ou um grilo seria uma boa opção.

Mas quando chegámos fomos imediatamente abalroados por um cheiro tão nauseabundo que a minha coragem se esvaiu completamente.

Todos os cheiros se misturavam naquela ruela estreita. As bancas fumegantes lançavam no ar os odores intensos de escorpiões grelhados, passaros encartilhados e estorricados, tripas, rins e outras vísceras cozidas ao vapor, morcegos, cobras e toda uma infinidade de bicheza mal cheirosa... 

E assim lá caiu  por terra  a nossa parca valentia.

Saímos de lá de estômagos revoltos e fomos arejar para o palácio de verão que se mostrou um espaço agradável para fugir á poluição da cidade.


No dia a seguir visitámos a Grande Muralha da China. Optámos por Badáling, o troço mais turístico e também o mais restaurado. Não era a nossa opção favorita pois penso ser mais interessante visitar secções menos concorridas como Mùtiányu ou mesmo selvagens como Jiànkòu. Mas para nós foi a solução mais fácil, mais viável e acima de tudo mais perto, já que ficava a apenas 70 km. Deste modo seria possível visitar numa manhã e ainda ter tempo para visitar o complexo olímpico com o seu maravilhoso estádio ninho de pássaro antes de apanhar o comboio nocturno para Datong, nessa noite.

A opção de ir de comboio até á muralha ficou logo posta de lado. Quando chegámos á estação a bilheteira estava encerrada. depois de muitas tentativas para que alguém nos explicasse o que se passava e onde comprar os ditos bilhetes lá conseguimos saber que durante o Verão os bilhetes esgotam com facilidade e por isso todos os bilhetes para os comboios dessa manhã tinham sido vendidos.

Basicamente nós, ocidentais estamos feitos ao bife nas estações de comboio chinesas. Ninguem fala inglês, as informações escritas estão  em chinês e para piorar a venda de bilhetes pode ser feita online 20 dias antes...mas só num site chinês e em chinês( que infelizmente não é o meu forte).

Como todos andam munidos de smartphones para tudo e mais uma bota não me parece que haja dificuldade em compras online :/ e por isso sobram poucos bilhetes a ser vendidos na estação. Por isso as opções são:  dar cá um saltinho 20 dias antes (....hum...não me parece) , madrugar na estação e depois gritar e acotovelar o suficiente á boca da bilheteira e ainda assim correr o risco de não conseguir um bilhetinho...( ainda pensei nisto), ou contactar uma agencia chinesa para comprar na estação por nós pelo dobro do preço. Foi o que fizemos para os comboios nocturnos, mas infelizmente não para a visita á muralha.

Restou-nos apanhar um taxi e perder o amor aos Yuans.

Mas naturalmente a visita á muralha tem de ser feita uma vez na vida. Afinal de contas este é o verdadeiro must-see de Pequim. A vista é deslumbrante com a muralha de pedra serpenteando-se majestosamente por entre o verde das montanhas.

Mas acima de tudo é esmagador pensar que a muralha original começou a ser construída há mais de 2000 anos e  que ali ficou até aos dias de hoje a observar silenciosamente a passagem do tempo e da vida que se foi desenrolando á sua volta. 

Sentimos que temos de estar ali naquele momento. Chegou a altura de dar os nossos passos nas mesmas pedras por onde tantos já passaram em tão diferentes épocas da história. É o nosso momento de nos mostrarmos á muralha. É a nossa vez e é avassalador!

Nessa noite partimos no comboio nocturno para Datong. E tudo o que não gostámos de Pequim ficou de repente pequenino...








segunda-feira, 12 de maio de 2014

Krabi

Aterrámos em Krabi depois de um curto voo a partir de Bangkok , certamente o voo mais sacudido da historia da Air Asia.

Perante os olhares questionadores da minha filha mais velha ( que sai á sua mãezinha e também não adora de andar de avião) fiz o voo agarrada com unhas e dentes aos braços do meu assento.

Desta vez o meu Anjo da Guarda nem teve mãos a medir com tantos pedidos que lhe fiz. Deu direito a súplicas, pactos para quando aterrássemos sãos e salvos e ainda, não fosse ele estar na dúvida, algumas negociações para os tempos vindouros desta vida ou de uma próxima qualquer.

Felizmente não me desiludiu e lá chegámos ao aeroporto da província de Krabi, nos arredores de Krabi Town, uma cidade algo desinteressante algures na costa oeste da zona sul da Tailândia de onde partimos rapidamente em direção às lindas praias da região.

A estrada que liga a orla costeira ao aeroporto é ladeada de penhascos verdejantes. Já tinha saudades desta paisagem da Tailândia. Numa nossa anterior passagem por Phuket tínhamos tido oportunidade de andar de kayak nas grutas cavadas pelo mar em rochas calcárias como estas que pontilham o mar na linda baía de Phang Nga.


Desta vez ficámos perto de Ao Nang, a mais movimentada praia de Krabi. Queríamos estar perto das ilhas Phi Phi outra vez e poder visitar de barco não só essas mas outras ilhas idílicas adjacentes. No entanto não fazíamos questão (mesmo nenhuma) de ficar no centro caótico de Ao Nang, pelo que optámos por uma zona mais pacata nos arredores.

O primeiro dia foi só para praia e sol. Muito protector solar em todos, desta vez em especial nos adultos. Tinhamos feito a profilaxia da malária aquando da nossa passagem pelo Camboja e o medicamento tomado pelos adultos tornava a nossa pele fotossensível. Felizmente o efeito secundário do medicamento adequado às crianças era “apenas” o eventual aparecimento de manchas nos dentes … :PPP

A praia era linda de águas quentes, areia fina mas estava minada de… caranguejos! Caranguejos aos milhares! Pequenos, é certo…mas aos milhares!
Devia ter calculado: Krabi, ou seja Crab, claro está!

Eram tantos que havia zonas que tapavam o areal parecendo que o chão se movimentava. 

Mas depois, á medida que avançávamos ao seu encontro, afundavam-se em pequenos furinhos que faziam na areia molhada. E só quando o sossego voltava, espreitavam cá para fora atirando toda a areia em excesso á volta do seu pequeno esconderijo e ficando este pequeno furo todo ornamentado de pequenas bolinhas. E o areal cheio destas lindas obras de arte.


Nos dias seguintes, e como já era descanso a mais para o nosso gosto, aproveitámos para conhecer os arredores.

Não quisemos deixar de ir a Ao Nang nem que fosse apenas para conhecer. Sabíamos que seria em tudo semelhante ás zonas mais turísticas de Phuket. Nomeadamente parecido a Patong, uma estância balnear onde proliferam bares ensurdecedores e prostituição. E, efetivamente, era mais do mesmo.

Mais um vilarejo excessivamente turístico, cheio de lojecas pejadas de bugigangas sem valor e contrafação em barda, muitos bares de música a soar alto e muita prostituição. Desinteressante.

Na verdade o exlibris de Ao Nang é mesmo o ferry para as ilhas Phi Phi. Ou seja, o ferry para sair de lá ;)

São essas ilhas que levam os turistas a Phuket ou Krabi. E, naturalmente, também nós fomos conhecer esses paraísos idilicos onde não tínhamos conseguido ir da primeira vez graças a um mar agitado e desmancha-prazeres que nos impediu de ancorar.

Koh Phi Phi é um arquipelago de 6 ilhas das quais Phi Phi Don e Phi Phi Leh são dos mais afamados destinos de praia do país.

Phi Phi Don é a maior ilha do arquipelago e também a única com infra-estruturas. 

Phi Phi Leh é um anel semi aberto formado por imponentes penhascos que emergem em pleno mar de Andaman e onde se esconde  uma pequena enseada chamada Maya Bay. 

Este local tornou-se famoso ter servido de cenário ao filme “A Praia” interpretado por Leonardo Di Caprio. 

A baía é de facto linda.
Uma praia de areia branca e águas claras rodeada de penhascos a toda a sua volta, tal como guardiões a proteger a enseada frágil  do mar revolto que a circunda.

Actualmente, desde a chegada do filme aos cinemas, Maya Bay deixou de ser um segredo bem guardado e passou a ser lugar de paragem obrigatória para multidões de turistas ávidos por praias paradisíacas…

Os barcos chegam ás dezenas e vão até ao areal. O cheiro a combustível é bastante e os turistas disparando selfies por todo o lado tiram o encanto ao local. O paraíso outrora secreto deixou de o ser.

Mas que fazer? Nós também gostámos de lá ir… :/

E "A Praia" mesmo assim, pejada de gente, não deixa de valer a pena uma visitinha. 

Não ficámos por lá muito tempo e optámos por manter o barco ao largo das ilhas junto a um banco de coral onde nos deliciámos (aí sim) a fazer snorkeling de óptima qualidade.

Foi também aí, ao largo das ilhas Phi Phi que tive o meu primeiro encontro imediato com um escorpião. O sacaninha estava escondido no meu colete salva-vidas e resolveu dar-me uma valente ferroada numa mão.

Basicamente esteve no meu colete o tempo todo enquanto andei a fazer snorkeling e quando o resolvi despir para poder nadar um bocado pus a mão mesmo em cima do desgraçado. 

Que susto!...e que dor horrorosa! Desatei a nadar  para o barco com uma aflição tal que todos pensaram que tinha sido atacada por um tubarão...ou dois ou um cardume (?) deles...
Afinal o cenário era de filme, mesmo... :P

Valeu-me o hospital de Phi Phi Don onde levei uma injecção na mão a fim de aliviar as dores que segundo os locais demoram 24 (!!!) horas a passar.

E foram mesmo 24 horas certinhas. 24 horas de dor, de mão inchada e de revivals da ferroada. 

Ainda hoje fico de cabelos em pé quando recordo.Mas o que mais me arrepia é pensar que experimentei este colete primeiro á minha filha mais nova e só o passei para mim depois de ver que lhe estava grande…Cruzes Credo!…Ca meeeedooooo…. :/

Foi com este final grandioso que acabou a nossa viagem pelo sudeste Asiático. Muitas experiências boas que queremos repetir…excepto a do escorpião que dispensamos. Mesmo.




quinta-feira, 1 de maio de 2014

Camboja mágico!

A decisão de visitar o Camboja durante a nossa viagem á Tailândia foi sem dúvida uma das mais acertadas que fizemos.

Era um assunto colocado sempre em cima da mesa cada vez que estudávamos o percurso e, por muito que sempre considerássemos que não poderíamos deixar de ir, a verdade é que Siem Reap esteve sempre no fio da navalha das nossas decisões. E os motivos eram sempre os mesmos: tempo e dinheiro.

Como grande parte dos portugueses não conseguimos tirar mais de 15/17 dias de férias de seguida e por isso se queremos conhecer uma determinada região no mapa temos de dividir a área por zonas, por férias e por viagens a sonhar mais para a frente.

Ás vezes estamos tão perto de certos destinos que ficamos com pena de não ter mais um dia ou dois para lá dar um saltinho por pequeno que seja…Regressar ao mesmo local para ver o que faltou implica todos os custos de uma outra viagem, o que muito provavelmente não acontecerá tão cedo para a mesma região. Claro que nunca tiramos partido de cada local como tiraríamos se tivéssemos todo o tempo do mundo, mas enfim…damo-nos por felizes com o que temos feito :) .

Neste caso, depois de arranjar tempo no nosso percurso punha-se ainda a questão do orçamento. Levar a família toda implica multiplicar o valor de cada voo por 4…e ir a Siem Reap era um extra assustadoramente caro para nós.


Não havia ligações directas entre Chiang Mai, e Siem Reap o que faria com que tivéssemos de voltar a Bangkok para apanhar outro voo. Isto resumia-se mais uma vez á necessidade de mais tempo e mais dinheiro.

Numa das últimas reuniões “pré-viagem”, quando já quase estava praticamente decidido saltar esta etapa da viagem, concordámos consultar uma ultima vez o site onde há dias os preços dos voos eram absurdamente altos.

Para nosso espanto os preços tinham baixado muito significativamente e permitia-nos com o mesmo dinheiro comprar não só os bilhetes para Siem Reap bem como a ligação até Bangkok e muito embora ainda fosse um esforço passou a ser um esforço muito mais viável.

Como se costuma dizer: nada acontece por acaso e estes voos baratos de ultima da hora surgiram porque assim tinha de ser. O Camboja estava-nos destinado.

Assim, ao entardecer embarcámos num pequeno avião da Siem Reap air que decolou de Bangkok com um punhado de outros passageiros e voámos até ao Camboja acompanhados das sacudidelas violentas de uma temporada de monções.

Viajar com os nossos filhos num destes voos que chocalham incessantemente é sempre uma situação caricata. Perante os olhares assustados das miúdas dou por mim a dizer “ tem calma que isto é normal…” , e depois ridicularizo-me ao reparar que a frase quase nem se faz ouvir de tão cerrados que vão os meus dentes.

Mas enfim, depois de muitos pedidos ao meu anjinho da guarda, lá aterrámos finalmente sãos e salvos, num pequeno aeroporto que surgiu ténue por entre o escuro da noite e da selva.

Era tarde e por isso nesse dia apenas visitámos o centro de Siem Reap, algo que fizemos comodamente instalados a bordo de um tuk tuk em tudo diferente dos tailandeses: neste caso, uma linda e ornamentada carruagem atrelada a uma mota.

Visitar Siem Reap de bicicleta teria sido sem duvida a melhor escolha, mas dada a nossa falta de tempo mais uma vez, e visto estarmos com crianças pequenas que não suportariam dias intensos de bicicleta, o tuk tuk acabou por se mostrar de facto a melhor opção.

O motorista , um rapaz novo sempre sorridente e bem disposto munido de um capacete maravilhosamente ilustrado por uma pseudo- Hello Kitty ofereceu logo os seus serviços para nos acompanhar em toda a nossa estadia, aguardando por nós sempre que necessário.

Siem Reap é já, naturalmente, muito voltada para o turismo e o centro é bastante prazenteiro com bons hotéis e restaurantes.

É no fundo um pequeno oásis num país dominado pela miséria e pelas tristes lembranças ainda recentes de um dos mais sangrentos episódios do seculo 20 e da história.

O regime de terror dos Khmer Vermelhos liderado por Pol Pot aconteceu há não mais de 40 anos e exterminou em 4 anos cerca de 2 milhões de pessoas.

Phnom Penh, a capital, foi evacuada e a população enviada para campos de trabalho forçado/concentração ficando á mercê de soldados bárbaros que matavam, torturavam ou deixavam “simplesmente” morrer á fome ou de doenças como a malária.

Como é que algo tão cruel pode ter acontecido há menos de 40 anos? Já depois do inferno nazi… Como é que o mundo não aprendeu nada?

E como é que se levanta a cabeça depois disto e ainda se vive com um sorriso no rosto?

Perante tudo isto, e a meu ver, as pessoas são sem duvida o melhor que o Camboja tem. Esta viagem foi mais do que isso. Foi também uma lição. Temos de facto muito a aprender com este povo e deixar de chamar “problemas” ás nossas mesquinhices do dia a dia.

No dia seguinte fomos visitar os afamados templos de Angkor, a 8 km de Siem Reap.
Assim que entrámos no complexo adorei cada minuto do trajecto: um caminho ladeado por árvores imponentes que se resume a um mix de pedras milenares e selva verdejante.

Toda a gente devia poder ver os templos de Angkor pelo menos uma vez na vida. O lugar é absolutamente soberbo. Podia agora desbobinar uma imensidão de adjetivos e muito provavelmente ficaria muito aquém do que seria uma descrição exata da grandiosidade do local.

Angkor foi a antiga capital khmer que acabou engolida pela selva após ser abandonada no período que se seguiu a uma invasão por parte dos tailandeses. A cidade caiu no esquecimento por vários séculos, até que em finais do século 19 um francês de nome Henri Mouhot que segundo consta andava a apanhar borboletas(?) a deu a conhecer ao mundo ocidental.

Conforme escrevo estas linhas lembro-me como seria uma descoberta destas naquela época. E ao contrário do expectável para esse momento solene, só consigo imaginar este explorador vestido de safari com ares de Dirceu Borboleta da novela Bem Amado, chapéu á explorador no cucuruto e rede de borboletas na mão saltitando selva fora quando de repente eis que tropeça num tesouro arqueológico deste calibre…

Pelos vistos não perdeu o pio com o espanto pois deu a novidade a todo o ocidente…mas nunca mais deve ter precisado de apanhar borboletas!

Mas adiante…
A visita obrigatória ao complexo inclui os templos de Angkor Wat, Bayon em Angkor Tom, Ta Phrom, terraço dos elefantes e Baphuon.

Corremos tudo de lés a lés. E quando digo corremos é no sentido figurativo pois só mesmo de tuk tuk se consegue andar na zona, já que os templos estão dispersos por uma área de algumas centenas de kms. Mas ainda caminhámos bastante por entre as pedras esquecidas na selva, muitas delas já amontoas e catalogadas pelos arqueólogos, como se de um gigante puzzle se tratasse.

No entanto e como não poderia deixar de ser ficámos deslumbrados em particular com Angkor Wat, Ta Phrom e Bayon.

Angkor Wat é o principal templo do complexo e ostenta o titulo merecido de uma das 7 maravilhas do mundo. É a maior construção religiosa do mundo e faz jus á fama que tem. Subimos ao topo do templo e pudémos olhar a selva que envolve o complexo, como um imenso mar verde a perder de vista. As crianças ficaram indignadissimas por não poderem subir mas as escadas são extremamente ingremes e vertiginosas pelo que um letreirinho cá em baixo proíbe a subida da arraia miúda.

O templo de Ta Phrom tornou-se mundialmente conhecido por ter servido de cenário ao filme Tomb Raider intrepretado pela sexy actriz Angelina Jolie e foi o que mais me impressionou. É a verdadeira ilustração de um templo devorado pela selva onde as raízes nodosas das arvores abraçam e envolvem as paredes de pedra musgosa.

Este templo, ao contrário de outros do complexo, está de tal forma fundido com a selva que em muitos sitios a opção foi mesmo perservar essa envolvencia e mostrar ao mundo como era a cidade esquecida de Angkor antes de qualquer restauro.

Quando fomos não havia muita gente e tivemos o prazer de estar em certas zonas sem mais ninguem, como se fossemos os verdadeiros exploradores do local. Este privilégio permitiu-nos sentir o templo de uma forma quase magica. Nem demos por o tempo passar.

Falando agora de Bayon. Também mundialmente famoso, ilustra muitas das imagens que retratam o Camboja. Este templo está situado em Angkor Tom e é ornamentado com 54 torres das quais ainda persistem 37 . Cada uma dessas torres tem esculpidas 4 faces do rei Jayavarman VII voltadas para cada um dos 4 pontos cardeais.

A serenidade das faces é de tal forma sublime que há quem considere que não é apenas o antigo rei Khmer que está representado mas sim Budha, ou mesmo uma perfeita sintonia dos dois.

A nossa visita a Siem Reap nunca ficaria completa sem uma visita ao lago Tonle Sap também conhecido como Grande Lago do Camboja que se situa a cerca de 16 km de Siem Reap.

Este lago ligado ao rio Mekong pelo rio Tonle Sap tem uma extensão de cerca de 2500 km mas na época das monções multiplica várias vezes o seu tamanho. Durante esse período e, ao contrario do resto do ano, o lago enche com a água que flui do rio Mekong através do rio Tonle Sap. Depois, quando termina o período de chuvas volta a vazar no sentido inverso.

Este fenómeno faz com que as margens fiquem inundadas numa grande extensão não só fertilizando terras mas acima de tudo permitindo a subsistência de um ecossistema incomparável que já lhe valeu o titulo de Reserva da Biosfera pela Unesco.

A grande riqueza em peixes de água doce fez com que nascessem no local três aldeias flutuantes que são ponto de passagem obrigatório por quem visita a região.

Como não podia deixar de ser aí fomos nós no nosso tuk tuk conduzido pelo Sr hello Kitty até á margem do dito lago para depois embarcar numa barcaça conduzida por um miúdo. 

A minha filha mais nova detesta andar de barco vá lá saber-se porquê mas até ela se esqueceu desse pormenor enquanto olhava este local deveras impressionante e a vivência dos habitantes da aldeia.

As pessoas vivem em pequenas casas de madeira construídas em palafitas ou em barcos  igualmente pequenos onde estendem uma pequena rede que lhes serve de cama.

A sua vida é passada por ali, vivem do lago e do sustento que este lhes dá, seja em forma de alimento seja em forma de dinheiro mendigado pelas crianças que saltam á água frenéticas, tentando alcançar os barcos  que passam. 

E acabou assim a nossa curta passagem pelo Camboja. Em três dias apenas ficámos completamente conquistados, deslumbrados e apaixonados. A partida iminente deixou-nos deprimidos, sem vontade de partir. Queríamos ficar mais tempo, voltar aos templos, andar de bicicleta pelas aldeias arredores, conviver com as pessoas ou vaguear até Phnom Penh. 

Mas chegara a hora e dali partiríamos para Krabi para uns dias de descanso e de praia, algo que  as miúdas já ansiavam. O famoso período de férias para descansar das férias.

É triste pensar que podemos não voltar. Tento alegrar-me dizendo que fica na rota de uma próxima viagem ao Vietname ou ao Laos. Engano-me pensando que voltaremos com mais tempo nessa altura.... 

Mas quem sabe?
Au revoir Camboja!