quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Yangshuo by bike - o lado rural

Aterrámos em Guilin e procurámos  o motorista que nos levaria até Yanshuo, uma zona rural  a 70 Km do aeroporto na província de Guangxi. 

A paisagem de Yangshuo faz parte do nosso imaginário sobre a China pois tem sido retratada em muitas imagens e representações do país, inclusivamente na parte de trás das notas de um yuan, nas pinturas dos painéis de milhares de restaurantes chineses e em mais uma imensidão de outras gravuras que ilustram o país por aí.

Ao contrário da ideia preconcebida que tínhamos sobre a cidade, que na nossa mente seria um vilarejo calmo e melancólico, Yangshuo surpreendeu-nos pelo seu caos á boa maneira asiática. Imensa gente, mercados nocturnos sobejamente animados, turistas chineses á pazada, motoretas ruidosas e tuk tuk fumegantes com fartura.

No entanto fora da cidade temos o verdadeiro cenário bucólico que nos levou á região: os mares verdes das imensas plantações de lotus e arroz que se estendem pelo sopé dos penhascos calcários de cumes arredondados escondidos na penumbra.

As estradas estreitas  levam-nos ás pequenas povoações e convidam a caminhadas ou passeios de bicicleta.

Os arrozais imensos ladeiam o caminho onde o silencio é a nota dominante e os rios Li e Yulong que os banham sugerem passeios em jangadas de bambu.

Ficámos alojados numa guesthouse cheia de charme gerida por um simpático casal alemão que comprou um aglomerado de casebres e o transformou neste espaço acolhedor e original.

Já tinha conhecido a guesthouse "the giggling tree" através de vários blogs de viajantes e tornou-se quase obrigatória a nossa passagem por lá.

Os quartos simples de rede mosquiteira pendurada sobre as camas trazia-nos a lembrança de que estamos numa região onde, ainda que remotamente, surgem alguns casos de malária. Fez-me estremecer.

Depois das experiências com as profilaxias aquando da nossa viagem ao Camboja,  e uma vez que esta zona já estava considerada fora de perigo pelo UK, optámos por não fazer medicamentos desta vez. Afinal o fármaco para esta zona tinha tantos efeitos secundários graves que nem sei o que nos assustava mais.  Além disso só ficaríamos por 3 dias.

Decidimos assim comprar repelentes com a percentagem recomendada de DEET, pulverizar-nos a toda a hora, utilizar as espirais cedidas pelo hotel e confirmar os quartos e as redes mosquiteiras antes de dormir.
E felizmente correu sempre tudo lindamente.

No dia seguinte alugámos bicicletas e resolvemos aventurar-nos pela zona. É mais ou menos o must-do de Yangshuo e não quisemos deixar de ter esta experiência. Assim e  para poupar as miúdas  de um esforço excessivo optámos por bicicletas tandem. E quanto a isto só tenho uma coisa a dizer: da próxima vez que tivermos uma destas ideias luminosas por favor espanquem-nos. O que estas maravilhosas e ágeis bicicletas nos proporcionaram foi no mínimo surreal. Não tínhamos noção do que iríamos sofrer...

Chovia horrores! Envergámos as magnificas capas modelito saco-de-plástico típicas destas andanças (as quais se romperam ao final dos primeiros metros) e, com os nossos maravilhosos chapéus cónicos no cocuruto  lá fomos felizes e contentes (valha-nos isso) nas lindas bicicletas pasteleiras duplas sem mudanças e com rodas de triciclo pela estrada fora.

O Luis pedalava literalmente de cócoras e com os joelhos a bater no guiador... ou pelo menos foi o que tentou fazer nos momentos em que não estava parado a pôr a corrente no lugar, o que acontecia quase a cada quilometro...

Quanto ao trajecto não sabíamos muito bem qual escolher mas queríamos visitar a moon hill, uma montanha cujo cume perfaz um arco e até á qual podemos subir.

Falámos sobre isso na recepção do hotel e foi-nos gentilmente cedido um pseudo-roadbook que de facto foi uma mais valia para não nos perdermos (tanto) nos arrozais...

Abrimos as primeiras folhas do roadbook e surgem as primeiras indicações: a foto do alemão, dono da guesthouse, parado num cruzamento de braço esticado para a esquerda apontando a direcção. 

Segunda foto: o alemão noutro cruzamento de braço esticado para a direita a indicar o caminho. 

Terceira foto: mais uma vez o alemão, mais uma vez o dedo espetado para um lado qualquer. 

E assim sucessivamente, retrato após retrato, fomos seguindo as direcções tentando identificar o local de cada foto á nossa passagem. 

Um senão: as fotos foram tiradas na época seca e estavamos em plena época de chuvas. Ou seja: estradas submersas, trilhos alagados e toda uma infinidade de obstáculos não previstos dificeis de percorrer ainda mais naquilo que se poderá chamar tentativa frustrada de bicicleta. 

Tencionávamos com isto fazer uma pequena volta de 25 km até á moon hill, e, ao contrário do que esperávamos esta distância ridícula levou-nos praticamente o dia todo já que atascámos a cada pedalada. Na verdade tenho certeza certezinha  que se tivéssemos ido a pé teria sido mais rápido...

Não foi um passeio qualquer. Foi uma aventura, uma odisseia, uma proeza dos diabos!
Enquanto empurrava a minha bicicleta pelos trilhos dos arrozais acima tentando ultrapassar a imensidão de lama pegajosa que sorvia as rodas da minha pseudo-bicicleta,  a corrente do Luis saltava mais uma vez, a Rita perdia um chinelo numa poça, a noite caía cada vez mais escura e a chuva ficava cada vez mais forte. Perdemos a estrada algures debaixo do rio e pedalámos com água pelas canelas, tirámos fotos enlameados, encharcados a escorrer água e suor por dentro e por fora das nossas capas plástica mega fashion.

E quando folheávamos o nosso roadbook não conseguíamos deixar de soltar uma gargalhada nervosa ao ver o numero de retratos do alemão que faltavam percorrer. 

Mas ninguém esmoreceu. Nunca conseguimos desmanchar o sorriso parvo de orelha a orelha que insistia em se manter escarrapachado nas nossas caras.  Riamo-nos do ridículo uma e outra vez gozando com a situação. Pedalámos em conjunto nas subidas com trejeitos de marcha militar ou cantámos sonoramente nas descidas.
Até que cheguei á base da moon hill e vi que, em cima de todo este esforço tinha de subir 800 degraus. Espumei, bufei e logo depois senti-me pequenina quando as miúdas no seu maior animo tentaram persuadir-me a não desistir. E subi enquanto elas pulavam contentes á minha volta como se os 800 degraus fossem a mais agradável das descidas.

Chegámos já escuro ao hotel. Eu tinha as pernas a tremer do esforço daqueles míseros 25 km que se revelaram enooooormes. Mas estávamos felizes. Foi um momento daqueles que se vivem num só dia mas se recordam para sempre e sobre os quais se fala atabalhoadamente horas a fio sobrepondo as palavras umas ás outras sem que se consiga relatar fielmente as emoções. Se queríamos experiências em família este dia foi sem duvida a ultimate experience.




Sem comentários:

Enviar um comentário