segunda-feira, 14 de agosto de 2017

SaPa - o arroz e uma cabana.

Esqueçam tudo o que sabem sobre comboios. Sabem aqueles comboios melancólicos que deslizam nos carris embalando os passageiros num doce balançar que nos transportam a mil memórias de infância...bla bla bla...? Pois não é desses que estamos a falar. Há de facto esses comboios ... maravilhosos . E depois há os comboios do Vietname.  E sem dúvida há uma linha que os separa. Ah e tal vai ser uma boa opção dormir no comboio que até nos embala ... etc etc... 



Não. Aqui não se embala ninguem. Fomos literalmente sacudidos furiosa e violentamente toda a santa noitinha. Ora sacudia de forma brusca de um lado para o outro e se não afastássemos bem a cabeça do topo da cama iríamos as cabeçadas pela noite fora, ora sacudia de cima para baixo como se tivesse molas e sentíamos o corpo saltar do pseudo colchão, ou ainda ( sim ainda há a terceira opção) éramos sacudidos em todos os sentidos ao mesmo tempo como se estivéssemos em cima de um touro bravo em pleno rodeio.  
Não falando da música maravilhosa com que fomos acordados. A voz estridente de um qualquer Roberto Leal chinês que não deixa ninguém passar a estação. Como se fosse possível alguém dormir profundamente. 
Enfim... pensava eu que este comboio seria melhor que o da China. Oh santa ignorância.  Como eu estava estupidamente enganada!!!! Tínhamos ouvido falar muito bem de Sapa , das suas montanhas verdes repletas de socalcos de arroz. Existe de facto essa paisagem. Penso que não da forma grandiosa que estava á espera. Não é de todo uma paisagem de cortar a respiração. E para dizer a verdade não acho de todo que valha a viagem. Ainda por cima quando esta implica uma noite em claro num comboio destes. 

Chegamos á estação de Lao Cai para nos enfiarmos de seguida numa van de 15 lugares ,partilhada com um bando de espanhóis ruidosos, que nos levaria montanha acima até á afamada Sapa. Quando lá chegámos a desilusão apoderou-se de nós. Era um vilarejo degradado, com ruas sujas e cheias de lixo, muitas obras caóticas a acontecer e completamente desinteressante. Por todo o lado lojecas a vender imitações da north face que, a bem dizer convencem mesmo os mais cépticos. Á porta penduram-se alguns casacos, mochilas e mais alguma cangalhada para atrair quem passa, mas tudo fica com uma leve camada de pó levantada pelos camiões e motas que passam a toda a hora transportando pedras das obras. ( e buzinando , claro). 


 Chegámos ao hotel, que não era mais que um aglomerado de bungalows em junco sobre um arrozal á volta de uma casa mãe. Foi o ponto alto da estadia. Bastante básico,  com uma decoração com têxteis da região, mas muito cómodo e com muito bom gosto. 


Os pequenos bungalows estavam estrategicamente colocados num socalco de arroz conseguindo oferecer-nos uma vista muito bonita sobre o vale. Largámos as coisas e fomos fazer o trekking mais aconselhado: um passeio á volta das aldeias das minorias étnicas da região. Começamos por descer para o vale por uma bifurcação 500m acima da nossa guesthouse. Ainda não tínhamos dado 3 passos e vimo-nos rodeados por umas 7 ou 8 mulheres de etnia H'mong vestidas a rigor com os seus trajes típicos. 



Muito risonhas, simpáticas e de gargalhada fácil foram tentando criar diálogo e ganhar empatia connosco para depois nos tentarem vender o seu artesanato. Porém não tentaram logo impingir nada e limitaram-se a andar connosco falando de si e das suas famílias enquanto tentavam saber mais sobre nós. Cada duas rodearam um de nós e quando dei por mim a Lili e a Mina já eram quase as minhas "melhores amigas". Por momentos pensamos que iríamos fazer o trekking todo rodeados pelas mulheres h'mong . De tal forma estávamos já incomodados que acabamos por ser nos a pedir que nos mostrassem logo o que queriam para que pudéssemos comprar e seguir viagem sem elas. Parece feio dito assim e sentimo-nos os piores do mundo mas acreditem que ao fim de vários km, a falar de tudo já N sabíamos o que falar ou fazer para simplesmente seguir caminho e apreciar a paisagem sem tropeçar nelas. E é exactamente isto que fazem com cada turista q cruzam. Vendem  vencendo pelo cansaço. Compramos para as despachar. E assim que o fizemos a Mina e a Lili esqueceram logo a nossa amizade profunda e trairam-me com o camone mais próximo. Nunca mais as vi. 




O trekking também tinha pouco para apreciar. O trilho aconselhado era a própria estrada que passava pelas aldeias, a qual tínhamos que partilhar com as motas que passavam. As aldeias não são mais que barracas de cimento e chapa ondulada onde se vende mais artesanato, essencialmente têxteis , feitos pelas mulheres.  Claro que é interessante ver as rotinas dos habitantes á medida que atravessamos as aldeias: as mulheres a espalhar o milho para secar ou as crianças a recolher as manadas de búfalos. 
Porém para isso há que nos abstrairmos de algumas coisas. Nomeadamente na quantidade de lixo na beira da estrada.
É uma pena pois este vale é a principal atração da região. Por toda a vila de Sapa rebenta nova construção de futuros hotéis mas nada se faz para preservar o que leva os turistas á zona. 
No dia seguinte acordamos num dia típico da rainy season. Chuva pesada e constante, céu encoberto e a certeza de que o sol não espreitará Sapa nos próximos dias. 
Mas não faz mal. Estamos de saída para mais uma noite maravilhosa no comboio vietnamita. Mal podemos esperar por saber que música encantadora nos acordará de manhã. Isto se conseguirmos dormir, claro. 





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