sábado, 20 de setembro de 2014

Pingyao - Um vislumbre da China autêntica

Chegamos a Pingyao pelas 6 e pouco da manhã depois de muitas voltas no beliche enquanto tentava respirar por baixo da almofada com que me abafei em vão para não ouvir as chiadeiras que soaram a noite inteira. 

Não sei como as crianças conseguem esta proeza de cair redondas na cama alheando-se de qualquer som mais estridente...Adorava ter tido essa capacidade nesta noite de comboio. 

Meio estremunhados lá saímos da estação para encarar um cenário com algumas semelhanças a Datong: uma avenida larga que se estende á nossa frente com a estação onde nos encontramos de topo. 

As fotos de uma localidade e outra não serviriam para passatempo de " descubra as diferenças" só porque desta vez estava tudo em obras. Como aliás em muitos outros locais da China.O país está em crescimento á grande e á chinesa. Em franca expansão. Tudo está em obras e por todo o lado nascem novas avenidas e  novos e grandes centros comerciais.

Mais do que a pequena Pingyao precisa para já, mas perspectivando um futuro não tão distante quanto isso onde se vislumbra um acréscimo do turismo na região.  Mas para já somos poucos ocidentais á mesma. 

Por poucos yuan, largámos as mochilas numa loja perto da estação e procurámos a zona velha que estava  escondida entre muralhas num quarteirão mais á frente. Trespassámos  os portões pesados que separam a China antiga da mais moderna. Que separam o passado do presente. 

Imediatamente ficámos rendidos ao encanto deste centro histórico que detém actualmente o merecido titulo de património da humanidade e é um dos patrimónios urbanos mais bem conservados do país: uma vila datada do século XIV com edifícios da dinastias Ming e Qing muito bem preservados. 
Um tesouro arquitectónico que nos mostra como se vivia antigamente. Como é a China autêntica. Ou pelo menos como era...

Fiquei particularmente deslumbrada com as antigas lanternas chinesas penduradas nos telhados. Tive em miúda, umas luzinhas para a arvore de Natal igualzinhas que nem sei exactamente como foram lá parar a casa ( ainda não havia lojas do chinês em Portugal por essa altura :P) e na verdade já nem me lembrava delas.   Adorei ver as originais que serviram de inspiração ás minhas luzinhas de natal. Que lindas eram as ruas de pedra, ladeadas pelas casas de tijolo cinzento com os seus telhados da mesma cor e as suas lanternas vermelhas a contrastar.

Quando chegámos a vila estava adormecida e silenciosa. Poucos espaços estavam abertos. Entrámos numa guesthouse numa das ruas mais centrais, onde um autocolante alusivo á Lonely Planet nos convidou a entrar. Confortávelmente instalados devorámos um saboroso western breakfast que nos trouxe os sabores ocidentais pelos quais já ansiávamos há dias após muitas tentativas frustradas em acertar com refeições. Adorámos entupir-nos de panquecas e torradas :) e não ter de comer noodles ao pequeno almoço...

Esperámos que a vila acordasse enquanto bebericávamos um café expresso preguiçosamente.
E que giro foi assistir ao seu despertar.

As lojas abriram estendendo bancas na rua e num ápice o aspecto adormecido das ruas desapareceu entre essa agitação.

A vila deixou de ser um aglomerado de antigos edifícios de pedra cinzenta e encheu-se de cor. Pacheminas,chapéus, estatuas, máscaras, leques, e toda uma infinidade de recuerdos coloridos pontilharam as entradas das pequenas lojas.

Assavam-se bolinhos fumegantes em carripanas velhas que rapidamente encheram todo o quarteirão de aromas adocicados. Longe das quinquilharias e chinesices das lojas Pequim, Pingyao tornou-se uma tentação para nós.

Perdemo-nos essencialmente nas estatuetas, máscaras de madeira e malas. Perdi-me á séria pelos malas, o rosário ou terço oriental utilizado por monges e ioguis para a entoação de mantras (japamala).

Uso muitas vezes ao pescoço um mala de 108 contas que adoro, feito em sementes de Rudraksha que comprei há uns anos em Portugal depois de muito procurar.

Estas pequenas sementes rugosas estão associadas a uma lenda de Shiva,o criador do Ioga.
Segundo a lenda, após uma meditação de compaixão pela humanidade, Shiva chorou e verteu lágrimas no chão. Dessas lágrimas nasceu a arvore de Rudraksha cujo fruto protege estas sementes e que são por isso conhecidas como  lágrimas de Shiva.

Há quem as conheça também por sementes da Bodhi tree, a árvore sob a qual Buda atingiu a iluminação e muito embora não o sejam exactamente, a verdade é que a elas se atribuem várias crenças auspiciosas e poderes curativos que não me vou por agora aqui a enumerar. Mas concluindo, estes malas sempre foram cruzando comigo nas minhas pouco assíduas práticas de Ioga e sempre quis ter um.

Mas encontrar um mala de Rudraksha em Portugal não é tarefa fácil e os preços dos que aparecem são muito pouco convidativos. E ali em Pingyao o dificil era mesmo escolher perante a infinidade deles: de vários tamanhos com sementes de vários gomos, polidas ou rugosas, com ou sem outros ornamentos.

Enfim...acabei por trazer uns quantos :P.


Mas compras á parte adorámos este dia. Pois é, minha gente: vale mesmo a pena visitar Pingyao. Justifica em grande escala 2  noites mal dormidas no chocalhar dos comboios, o encontro imediato de 3º grau que tivemos com as casas de banho nas carruagens e o banho que não tomámos por 2 dias. E tudo isto para poder ver este sitio maravilhoso.  Ao final deste dia pode dizer-se que estaríamos mais mal cheirosos, é verdade, mas claramente muito mais felizes e realizados. Faria tudo outra vez sem a mais pequena sombra de dúvida.

Ao fim do dia atravessámos a cidade para a estação de TGV que se situava no outro extremo da cidade, carregados com um saco extra e algum peso adicional nas mochilas. 
Infelizmente não tínhamos conseguido bilhetes em segunda classe...Que azar, lá tivemos de ir em primeira ;)

Refastelados, de cadeira reclinada e perninhas elevadas largámos Pingyao no Bullet train. Em alta velocidade. Até Xi'an.





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