quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Tailândia do meu coração - Bangkok




Quem não sonha acordado com estes destinos exóticos???
Eu sonho...aliás ando sempre a sonhar. Mesmo quando não posso viajar,  ando sempre com um sonho de uma próxima viagem  guardadinho na manga (just in case).
Perco-me a devorar os inúmeros guias da Lonely Planet que compro por antecipação para o caso da crise desaparecer por alma e graça do Espirito Santo e eu poder dar largas á minha vontade de conhecer o mundo. Além disso completo a leitura com os mais variadissimos sites e blogs e ainda preparo roteiros e listas de "must see" na minha cabeça para me manter  preparada para uma partida iminente que teima em vir menos vezes do que eu gostaria.

Com grande sorte minha lá vou conseguindo fazer uma ou outra viagem.
Numa dessas ocasiões fiz aquela que considerei ser o mais proximo de "viagem da minha vida" que consegui até agora.

Sempre gostei da Tailândia e na minha opinião é um destino a repetir...sempre!
No ano passado fomos desafiados por amigos a fazer isso mesmo: repetir a viagem á Tailandia que tinhamos feito há uns anos.

E aceitamos prontamente porque a primeira viagem não tinha tido de todo os moldes que gostamos.

Não queriamos programas tudo incluido, roteiros já feitos nem visitas guiadas em magote a este ou aquele templo.

Queriamos, nos nossos parcos 15 dias de férias, ter total liberdade de movimentos e escolher o nosso próprio percurso da forma que nos apetecesse, para dar espaço para a viagem fluir.

Além disso levariamos as crianças pela segunda vez numa viagem deste tipo o que iria alterar por completo a logistica relativamente á nossa primeira visita aquele país.

Optamos por voar até á capital tailandesa, onde passámos uns dias e daí rumámos para Chiang Mai, no norte, visitando também o triângulo dourado. Depois seguimos para Siem Reap no Camboja graças a uma alteração de preços nos voos pouco antes da partida ( marcar tudo por nossa conta têm destas vantagens ;) ) e por ultimo, para gáudio da criançada fizemos uns dias de praia em Krabi com visita às ilhas do arredores incluindo as Phi Phi.


Aterrámos assim em Bangkok pouco tempo depois de termos decidido fazer a viagem.
Infelizmente e dados os cortes orçamentais para as férias, obrigatórios a quem se aventura nestas andanças com duas crianças, desta vez não fomos pela Thai para grande pena nossa.  Não pudemos assim ser brindados pelos maravilhosos sorrisos das suas hospedeiras , com lindas  fardas de seda e o seu "sawasdeeeeeeeeee kaaaaaaaaaa" prolongado e envolto em várias vénias .
Mas tirando a viagem ser horrivelmente demorada e ainda brindada por uma seca enorme a que se chama pomposamente de "escala", tudo correu bem.

O exotismo da viagem começa logo no aeroporto, um edifício ultra moderno, pejado de lojas das melhores e mais conceituadas marcas, onde se cruzam pessoas de todas as  nacionalidades e culturas.
Conforme os voos vão chegando misturam-se no mesmo espaço gentes de todo o mundo numa amálgama de cor: japoneses (alguns com mulheres de kimono!), indianos sikh de turbantes opulentos ladeados pelas suas delicadas (ou não) esposas enroladas em sari’s coloridos, muçulmanos de barbas cerradas e mulheres enfiadas em burkas de aspecto gasto, enfim, toda uma mescla vinda dos mais variadissimos cantos do globo.

Quanto a Bangkok pode dizer-se que é diferente de todas as outras cidades que já tínhamos visitado. É uma cidade de contrastes com prédios empilhados, uns de ar miserável outros de um luxo asiático extremo. A humidade absurda surpreendem-nos logo á chegada tornando em poucos segundos a nossa roupa totalmente pegajosa e fazendo-nos transpirar por todos os poros.

A imensidão de canais sujissimos confere ás ruas um cheiro nauseabundo e a poluíção extrema polvilha a cidade de ratos e baratas.
As ruas cruzam-se cinzentas e desordenadas. O céu espreita bacilento entre os edificios e o comboio aéreo cruza a cidade.

Aqui e ali monges enrolados em hábitos açafrão dão cor a uma cidade onde o cinzento é nota dominante. De manhã caminham descalços entre a multidão com as suas malgas prontas a receber uma 1ª refeição oferecida pela população mais devota.

O rei Rama IX  é omnipresente. Espreita-nos de todos os pontos da cidade desde os outdoors ás notas e moedas dos nossos bolsos.

No tânsito indescritivelmente caótico vê-se frequentemente  pessoas aglomeradas nas caixas abertas das carrinhas, viaturas com cargas muito além das medidas possíveis para o tamanho do veículo, enfim…imagens que surpreenderiam muitos telespectadores assíduos do programa da sic “Nós por cá”.

Mas andar de tuktuk é obrigatório embora bárbaro para os nossos pulmões. Numa dessas peripécias vimo-nos horas num engarrafamento tentando chegar à chinatown da cidade. A aventura valeu-nos a experiência de desviar de carros pela faixa oposta galgando o passeio quando necessário enquanto mostravamos o desagrado ao motorista por este nos querer levar a ver a loja dos seus amigos indianos onde nos fariam baratissimo e num par de horas, um vestidinho de marca Chamel ou Arnani.

Atravessar as ruas é também uma experiência quase suicida com as passadeiras e semáforos a assumirem  um  papel meramente decorativo.
A alternativa consiste em lançarmo-nos para a estrada obrigando os condutores a parar o que é uma solução algo assustadora pois apesar do tráfego intenso, em Bangkok circula-se com velocidade suficientemente alucinante para enviar um peão menos precavido para junto de Buda.

Mas se o fizermos com cuidado e rapidez conseguimos atravessar a estrada acabando apenas por ser contornados pelos condutores, como se fossemos apenas mais um pequeno obstáculo na via.

Nesta viagem visitámos mais uma vez o impressionante complexo de templos do palácio real cuja silhueta ilustra toda e qualquer reportagem sobre a capital.


A construção deste complexo data de 1782 e serve de local de descanso ao sagrado Buda Esmeralda (Phra Kaeo) e de residência ao Rei. Tem por isso uma zona onde está o palácio real, e um subcomplexo (Wat Phra Kaeo) que é considerado o santuário mais sagrado da Tailândia, onde consta o Ho Phra Nak (mausoléu real), o Panteão real, o O Phra Si Rattana Chedi e, claro está, o bot do Buda Esmeralda.

Wat Phra Kaeo é, desde então o templo mais visitado da cidade e naturalmente não quisemos fugir á regra, desta vez para mostrar ás miudas e aos amigos.

Mais uma vez tivemos de nos enfeitar com roupinhas thai oferecidas á porta do complexo para cobrir as nossas vestimentas indecentes, ja que calções ou camisolas de cavas não são de todo permitidas nos templos.


O resultado foi umas lindissimas calças verdes para os homens que lhes conferia um certo ar de jardineiros sexy e para as senhoras uma não menos sexy camisa/bata branca á boa moda de massagista tailandesa (uuuui)...das mais sérias, claro. As crianças lá escaparam de vestir estes modelitos.


Numa primeira análise, entre os nossos novos outfit's ou os pareos psicadélicos emprestados a muitos  outros turistas que por lá passaram nesse dia,  ficamos deveras muito mais escandalosos... capazes, agora sim,de impressionar o proprio Buda Esmeralda...que ficou verde só de nos ver!

Ainda por cima o bot estava fechado para uma cerimonia qualquer e só de longe pudemos avistar a linda estatueta de jade incrustada a ouro comodamente instalada no cucuruto de um altar imenso. Aliás, um altar tão imenso que se não tivermos atenção arriscamo-nos a não ver o próprio Buda …

Os Chedi são outros edificios magnificos que ilustram o skyline da cidade. São edifícios de aspecto cónico e pouco ornamentados, normalmente dourados, que são utilizados para guardar algum objecto que outrora pertenceu ao Buda Gautama…ou ainda alguma parte do próprio!

O Chedi do Wat Phra Kaeo, o O Phra Si Rattana,por exemplo,  guarda religiosamente no seu interior um pedaço do externo de Buda, ou pelo menos é o que consta… (Nunca percebi muito bem, quem naquela época se dava ao trabalho de guardar estas coisas...)

Interessantissimo foi também o mercado de amuletos Talat Phra Chan que se situa nas traseiras do complexo. Tal como o nome indica aqui as ruas enchem-se de bancas carregadas com todo o tipo de amuletos que são benzidos em templos ou por monges iluminados. Desde pequenos objectos fálicos a mínimas figurinhas de Buda ou outras divindades todos são muito requisitados por supersticiosos ou coleccionadores, que os examinam com oculares de joalheiros antes de comprar para depois os usarem em colares ou fios.

Além disso também é o local certo para encontrar imagens de pessoas que já tenham atingido o estado de buda e que por isso sirvam de inspiração a alguem. Mais uma vez os os pertences dessas pessoas são bens preciosos e frequentemente se vê á venda algo que lhes tenha pertencido apresentado na banca com a sua foto ao lado para ser mais credivel.
Mas espantem-se, muitos desses objectos eram placas dentárias (!!!) Próteses completas ou parciais, usadas e de aspecto gasto. Isto deixa-nos a pensar: Quem é que anda com uma placa dentária de outra pessoa pendurada ao pescoço????


Ainda visitámos ali perto o Wat Phra Chetuphon, ou Wat Pho para os amigos, que é não só o mais antigo templo da cidade como também um centro de ensino público. Acima de tudo, é sobejamente conhecido como o templo do Buda reclinado, ou deitado.

O Buda Reclinado é aplamente imponente e majestoso e preenche todo o Bot com os seus 46m de comprimento. É uma imagem  feita de tijolo e gesso dourado, ornamentado com  madre pérola na sola dos pés. Enquadrar toda a sua magnificência numa fotografia  é por si só uma aventura pelo que toda a gente tem fotografias iguais: o belo do retrato dos pés com ou sem alguem ao lado. 

A nossa visita á capital da Tailandia, não ficaria completa sem voltar ao mercado nocturno de Patpong. Este mercado não é mais do que 2 ruas privadas repletas de caravanas ao centro a vender contrafacção e ladeadas por todo o tipo de bares de alterne com espectáculos de sexo e boxe que animam aquela que é considerada a mais famosa zona de prostituição do mundo.

Nas ruas éramos insistentemente abordados por todo o tipo de gente e todo o tipo de negócio mais ou menos decadente: o homem que vende t-shirts e boxers fio dental de marcas duvidosamente famosas, outro que vende relógios e malas que imitam tudo o que é griffe, pugilistas que vêm de luvas em punho á rua convidar para assistirmos o próximo round, e até  tailandesas (ou tailandêses!?) nas suas vestes mais sedutoras apresentando um cardápio á laia de lista de bebidas com os mais variadíssimos malabarismos sexuais incluindo inevitavelmente o afamado Ping Pong show.

Ou seja, Patpong é um daqueles locais de visita obrigatórios onde devemos praticar um pouco de "esplanading" enquanto bebemos uma singha fresquinha e vislumbramos de longe toda aquela azáfama.

Por fim reservamos o nosso segundo dia para nos deslocarmos até ao mercado flutuante de Damnoen Saduak, que adoramos e a um outro mercado situado em Amphawa, igualmente interessante mas menos famoso turisticamente.


Perto da zona, embarcámos num veloz long tail boat que não era mais que uma barcaça de madeira com um motor de automóvel adaptado, e, envoltos em grande ruído, zarpámos a toda a velocidade pelo labirinto de estreitos canais até ao local do mercado.

O caminho pelos canais imundos foi de grande interesse pois permitiu-nos ver de perto a forma de vida fora da capital. Sendo o canal a principal artéria , todas as casas eram construídas em palafitas junto ao mesmo e estavam munidas das respectivas barcaças.

Em cada casa podia ver-se a respectiva casa de espíritos, (uma pequena estrutura parecida com uma casa de pássaros ou bonecas que são muitas vezes réplicas de edifícios religiosos e que servem para acalmar os espíritos) e diversas oferendas: alimentos, flores e anéis de jasmim, estes últimos símbolo da beleza e dos ensinamentos de Buda.


As cenas do dia a dia em em torno dos canais mostravam-nos toda uma forma de viver. Os jardins eram compostos com nenúfares e outras flores aquáticas, delimitando a zona adjacente á casa. As crianças brincavam, tomavam banho ou lavavam os dentes na mesma água onde agora passava o nosso barco, inundando tudo com um forte cheiro a gasolina.

Chegados ao mercado, a azáfama era evidente. Saltamos rapidamente do nosso barco para uma pequena barquinha de madeira  e emaranhamo-nos num verdadeiro engarrafamento fluvial.


Esses barcos eram manobrados essencialmente por mulheres que vestiam na sua maioria as tradicionais camisas azuis dos agricultores e ostentavam os típicos chapéus de palha na cabeça.

Vendiam todo o tipo de frutos  mais e menos exóticos: rambuntans, mangostões e duriangos, e, conforme passávamos puxavam o nosso barco para junto do seu de modo a persuadirem-nos a comprar artesanato ou iguarias cozinhadas  ali mesmo no leito das pequenas embarcações. ( e que cheirinho tinham... ó mai góde!)

Aliás comida pelas ruas é coisa que não falta ao país. Claro que ja existem todas as cadeias de fastfood e milhentos restaurantes pomposos com excelentes iguarias thai  que só de pensar nos faz crescer água na boca, mas não se conhece verdadeiramente a gastronomia da zona sem provar a comida de rua com os seus temperos agridoces. 

Na Tailândia come-se na rua, em pé junto ás carripanas que ladeiam a estrada, e em qualquer esquina se encontram espetadinhas satay, patos assados pendurados pelas patas em bancas ou fruta fresca cortada no momento. Uma tentação por muitos poucos baths. Facilmente se faz uma refeição abaixo de 2 euros.

Assim foi a nossa ultima passagem por Bangkok. Curta para o meu gosto. Mais uma vez muita coisa obrigatória ficou por ver, como a antiga capital Ayutthaya ou mais a norte, Sukhothai. Mas no dia seguinte queriamos seguir para Chiang Mai e já não tinhamos mais dias. Isto deixou-me porém uma certeza: tenho de lá voltar rapidamente ;)