terça-feira, 29 de março de 2016

The blue city of Jodhpur. O azul de Shiva e da chuva.

O trajecto até Jodhpur foi bastante difícil.

O Luis continuava adoentado, com o seu Delhi Belly que finalmente dava tréguas mas ainda assim persistia um pouco. Já tinha melhorado mas como ja se sentia um pouco melhor achou que podia aventurar-se com mais uns sumos de fruta suspeitos. Enfim...Adora dizer que é um "local man" e experimentar tudo o que os locais comem. Estas experiências já lhe valeram uns bons tempos passados nas mais diversas casas de banho do Mundo. Faz parte do roteiro dele, assim como os monumentos de cada país o fazem para outras pessoas. Mais umas experiências destas e já pode escrever um guia Lonely Planet sobre o assunto.

De resto nada como ir á India para perder uns kilos para o Verão.


Luis e as suas crises/teimosias á parte, o nosso problema agora era a Margarida. Nem percebi como pôde  ter ficado doente. Evitámos tudo: Gelo, café, chá (o que é um grande desperdício na India), todas as verduras cruas e a bebida Lassi que eu tanto queria experimentar mas que leva sempre agua e quase sempre da torneira. Para todo o lado eu levava toalhitas desinfectantes e a toda a hora limpava as mãos das miudas. Evitámos tocar na boca e nariz, o que, se fizerem a experiência por um só dia vão ver que é mesmo um grande feito. E, depois de tantas proezas, por alminha de quem é que a miúda apanhou uma gastro destas à mesma? 

Acho que no fundo quem anda á chuva molha-se e apanhar Delhi Belly na India é tão certo como o sol nascer todos os dias. Só não apanha quem não vai lá ou quem faz uma passagem mais curta. Há sempre alguma forma, seja um copo mal lavado ou um sumo de fruta adicionado com água da torneira. 

Começou com Delhi Belly á saída de Jaipur e a viagem prometeu logo ficar mais interessante (ironia!).  Uma viagem de poucos km na India é sempre qualquer coisa para várias horas e nós tínhamos cerca de 350km para fazer. Ou seja: 6 a 7 horas ninguém nos tirava na certa. 

Não bastando as vacas, as buzinas e os buracos que fazem parte de qualquer viagem de carro pelo país, tínhamos agora o factor "miúda aos vómitos"  para animar o percurso.

Como se pode imaginar foi um dia de martírio, cheio de paragens repentinas e por isso mais demorado do que o habitual. 

Chegámos a Jodhpur muito depois. A cidade é muito pitoresca, com um centro histórico giro e animado. As fachadas azuis das casas, em homenagem ao Deus Shiva, valeram-lhe o titulo de Blue City. 

Ficámos alojados num hotel maravilhoso. Talvez o que mais gostei na nossa viagem á India: o maravilhoso hotel Raas (http://raasjodhpur.com). Trata-se de um hotel de charme com um ambiente carismático que funciona num haveli ( ou casa senhorial ) recuperado, onde foi feita uma intervenção com muito bom gosto, respeitando sempre a traça original, os materiais e cores da região. 

Só não entendemos muito bem o porquê de os funcionários virem de propósito ao nosso quarto para nos oferecerem  kits de tampões para os ouvidos. 
Não entendemos nessa altura mas compreendemos mais tarde, mais propriamente ás 5 da manhã quando acordei ao som dos cânticos religiosos que vinham de uma mesquita que estava nada mais nada menos que nas traseiras do nosso hotel e que debitava o som suficientemente alto para se fazer ouvir na outra ponta da cidade.

Claro que ás 5 da manhã já não consegui encontrar onde tinha posto os benditos kits de tampões e acabei ficar até de manhã a rogar pragas á nossa parca inteligência em não dar a devida importância á tão generosa oferta dos funcionários :P.
Mas ainda assim adorámos o hotel e repetiríamos sem duvida, pois a localização, a piscina e o serviço eram excelentes. Tivemos pena de não usufruir mais das suas óptimas condições mas além da falta de tempo e do estado de saúde da Margarida ainda fomos bafejados pela "sorte"de uma chuvada de caixão á cova.
Já andávamos há uma semana a enganar a chuva e em plena época de monções já levávamos com uma semana de viagem sem ser atingidos por uma pinga que fosse. 
Em Jodhpur pudemos finalmente sentir a monção de perto.
Posso mesmo dizer que foi uma das maiores chuvadas que presenciei.

Estávamos enfiados numa loja de antiguidades no centro histórico da cidade a comprar uma estatueta de Ganesha para remover os obstáculos da nossa vida em Portugal quando subitamente o céu enegreceu. 

O vento começou a soprar forte e a chuva abateu-se com tanta força que em poucos segundos as ruas tinham-se tornado rios lamacentos.
Sem que déssemos conta ficámos retidos na loja sem perceber como e quando iriamos conseguir sair dali. A certeza que tínhamos é que um pezinho fora da loja garantia-nos uma molha até aos ossos. Nada de grave não fosse estarmos munidos de máquinas fotográficas e outros apetrechos turísticos. 

Conseguimos por fim acenar a um tuk tuk que passou mais proximo e que a custo lá conseguiu subir a estrada, ou neste caso o rio, abrindo leques de água á sua passagem. 

Entre o chocalhar causado pelos buracos na estrada escondidos pela água e as molhas que apanhávamos sempre que cruzávamos com outro veículo, lá conseguimos chegar ao hotel menos encharcados do que esperávamos. Not bad at all.

Delhi belly, Monção e cânticos religiosos ás 5 da manhã são recuerdos que trazemos de Jodhpur. E como os Deuses deviam estar mesmo loucos, foi também em Jodhpur que me tentaram roubar a mala.
Era fim de dia e voltávamos ao hotel por uma rua mal iluminada ( não há como as evitar em Jodhpur) e eis que passa uma motorizada tentando dar um puxão. Como eu trazia a mala a tiracolo não conseguiu levar nada mas não deixei de  lhe gritar uns nomes feios em bom português...e  vou pensar que ele entendeu perfeitamente.

A nossa passagem por Jodhpur não ficaria completa sem passar pelo forte. A cidade fica no sopé de um monte imponente e no topo desse monte o forte cresce como um prolongamento da rocha. Construido com recurso ao mesmo tipo de pedra, ocupa todo o topo do penhasco fundindo-se com este sem que se consiga distinguir onde começa a muralha e acaba a montanha. Jodhpur está literalmente a seus pés, estendendo-se a perder de vista como um mar de casinhas pontilhadas de azul. Uma vista deslumbrante para rematar a nossa estadia naquela cidade. Depois da cidade rosa e da azul  mal podíamos esperar por conhecer a cidade dourada: Jaisalmer.