Nos dias que se seguiram á nossa epopeia de bicicleta ainda nos atrevemos a pensar em pegar nas bicicletas outra vez escolhendo outro dos vários roadbooks ilustrados pelo amigo alemão que chamavam por nós da recepção... ( são estas pequenas coisas que me fazem pensar que não devemos ser muito bons da cabeça) mas, ao invés dessa ideia disparatada optámos por visitar Yangshuo, a cidade.
Como já disse, Yangshuo ainda que mais pacata que a grande maioria das cidades da China, e apesar de pequena, era uma cidade bastante movimentada.
Esta meca de muitos mochileiros e ponto de paragem obrigatório dos turistas chineses era composta por uma larga e comprida avenida ladeada por lojas confusas sem piadinha nenhuma. Pensámos que seria mais um vilarejo desinteressante que tivesse crescido á sombra da zona rural mas que enquanto vila não teria interesse nenhum em particular.
Estávamos redondamente enganados.
Ao caminhar avenida fora deparámo-nos com uma ponte pedonal e resolvemos passar para o outro lado da estrada. Qual não foi o nosso espanto que, ao sair do outro lado, encontrámos-nos no inicio daquilo que era o coração da cidade. Uma zona movimentada, fechada ao transito repleta de restaurantes, lojinhas, esplanadas, vendedores ambulantes, gente e vida.
E, com o cair da noite, a azáfama instalou-se. As ruas encheram-se ainda mais ao ponto de termos de abrir caminho para passar.
Mais uma vez cozinha-se na rua. Noodles para todos os gostos, mais e menos mas sempre picantes. Para deleite da nossa filha mais nova encontrámos algumas carripanas de hambúrgueres exploradas por viajantes ocidentais que em algum momento da sua vida optaram em ficar por ali. Hamburgueres, sim, mas com molho de manga á boa moda oriental. E ao lado destes sabores há mais vendedores de noodles, vendedoras de fruta e vendedoras de favos de mel.
Á porta das lojas amassam-se rebuçados. Estica-se e puxa-se uma grande meada de massa de açúcar dobrando-a e voltando a esticar para depois ser vendida em pequenos pedacinhos doces. Enquanto isso, no outro lado da rua um grupo de raparigas vendem pacheminas colocando-as em si mesmas e alinhando-se avenida fora como manequins numa loja. Ensaiaram movimentos sincronizados umas com as outras e fazem parar multidões.
De repente uma nave espacial rasa a nossa cabeça e direcciona o nosso olhar para o ceu. São várias: pequenas naves de cartão apetrechadas de neons de varias cores cruzam o céu escuro subindo a uma altura alucinante perante os olhares maravilhados de quem passa. E... zás! , quase toca o nosso cabelo mais uma vez. E o vendedor manuseia-as remotamente enquanto mostra outros modelos ainda embalados a um potencial comprador. O Luis ficou fascinado com este brinquedo. Tive mesmo de me impor para não trazer uma nave espacial debaixo do braço ( já não cabia na mochila). Iria ser um problema o resto da viagem. Iria querer brincar com aquilo em todo o lado e tentar fazer as mesmas rasias á cabeça de quem visse. Mas com um pequeno senão: ele tinha muito menos prática e arriscava-se a esbardalhar a nave psicadélica na cabeça de alguém. Não. Não há nave para ninguém...nem pensar!
Enfim....ficámos maravilhados com o pulsar de vida deste vilarejo. De onde apareceu tanta gente? Não faço ideia. Vim-nos gregos para atravessar a cidade até á outra ponta. Tínhamos marcado um passeio no rio a fim de ver as antigas artes de pesca da região e apressámo-nos para o porto.
Entrámos na pequena embarcação onde o pescador nos aguardava para nos mostrar aquela que é uma das grandes atracções da cidade: a pesca artesanal com recurso a passaros cormorões, ou o chamado corvo marinho.
Esta técnica consiste em amarrar o pescoço do passaro para que este ao apanhar o peixe não o consiga engolir. ou seja, o peixe fica na garganta e é retirado depois. Resumindo: o pássaro tem o trabalhinho todo e nunca come nada...desgraçado. Até para ser pássaro é preciso ter sorte :/ .A regiao rural de Yangshuo é muito visitada por turistas chineses e não é dificil cruzarmo-nos com autocarros de 2 pisos nas pequenas estradinhas que ladeiam os arrozais. Em época de monções a situação complica-se um pouco mais visto que o rio enche e corta alguns dos atalhos usados pela população.
Sentimos essa dificuldade na pele.No dia a seguir teriamos de ir até o aeroporto de Guilin a fim de apanhar o voo para HongKong. Era fim de semana e o pequeno vilarejo encheu-se de gente. As estradas estreitas encheram-se de transito logo pela manha e percebemos que teriamos de nos apressar. Costumamos não facilitar muito com os horários e saimos sempre com tempo extra, o que por norma nos vale uma seca ou outra nos aeroportos. Ainda assim é sempre uma melhor opção do que perder algum voo. E assim foi. Saimos bastante cedo com tempo para chegar a Guilin e ainda tomar qualquer coisa antes de embarcar.
O que não previamos era que um taxi á nossa frente se enfaixasse num auto pullman de dois andares e barrasse a estrada.
E barrar é mesmo a palavra certa. Estavamos de facto barrados. As duas viaturas, na tentativa de caberem os dois no caminho, ficaram encaixados la lateral um do outro tapando as duas faixas ( ou seria uma?).E dali não saíam. Nem nós.Nem ninguem.
Apercebemos rápidamente que estavamos num problema. aquilo que se pode chamar um "molho de bróculos". A estrada não permitia contornos. De um lado o rio, do outro a montanha ingreme. Sobrava-nos uma ruela ao lado por onde tentámos atalhar por sugestão do nosso taxista mas que com a subida das águas se tornou intransitavel e tivemos de voltar para tras.
E ali ficámos por uma hora, entre o transito compacto que se formou. Surgiu uma multidão de motoristas a opinar e a dar palpites de como desobstruir a estrada. E enquanto eu já consultava a net para descobrir o comboio que poderia apanhar nessa noite caso perdesse o voo (que por essa altura já me parecia obvio) eis que por entre empurroes e puxoes conseguiu-se retirar o taxi.
Mas então, num laivo de estupidez, o transito de um lado e de outro avançaram ao mesmo tempo na ultrapassagem do autocarro e os primeiros carros da fila de cada lado ficaram de frente um com o outro. tudo parado outra vez. Daaaaaaah! E saem os motoristas. E discutem em chines com muitos gestos qualquer coisa indecifravel. E o nosso voo a fugir-nos por entre os dedos.
Foi então que o Luis num acesso de qualquer coisa entre o desespero de perder o voo e a loucura , saiu disparado do nosso taxi e foi resolver a situação. Não sei como isto se deu. Num ápice o transito ficou restabelecido. O Luis fala mal ingles. mas os chineses não falam inglês nenhum. Ora em chines não foi certamente, mas com gestos e um tom de voz mais alto tudo se resolveu num istante e conseguimos zarpar rápidamente até Guilin. Nunca apanhámos um voo tão á justa. Mas apanhámos. Depois de uns dias calmos na China rural, conseguimos sair de lá stressados. Foi o inicio do nosso regresso á azáfama das grandes cidades. Nihao, HongKong!
