Depois
de um voo curto com inicio em Bangkok aterrámos finalmente em Chiang
Mai debaixo de uma imensa chuvada. O céu cinzento e a chuva que
insistia em cair formaram a nossa primeira imagem daquela que é a
principal cidade do norte da Tailândia, também conhecida por “rosa
do norte”.
Francamente
mais pequena que a capital, a cidade goza de uma vida mais simples e
prazenteira sendo totalmente rodeada de montanhas cobertas de
vegetação luxuriante e banhada pelo rio Ping, um afluente do rio
Chao Phraya.
Chiang
Mai é por muitos considerada o epicentro cultural e espiritual do
país tendo sido construída em 1296 , pouco depois da antiga capital
do reino de Sião, Sukhothai , por ter uma localização estratégica
na rota da seda e para poder vir a ser capital ao reino Lanna.
A
sensação que temos á chegada é a de que ali estamos mais perto do
que é a verdadeira Tailândia. Exatamente aquela que esperamos ver
quando decidimos visitar o país. É uma região de grande interesse
turístico, não só pela vastidão cultural da cidade como por toda
a região adjacente ter um leque variadíssimo de “must see” e
“must do”.
Além
disso, e por ser uma antiga capital espiritual do reino, a cidade
goza de uma imensidão de templos (quase 300) além de outros
espalhados pela região.
De
todos o mais conhecido é o Wat Phrathat Doi Suthep que data de 1383.
Fica situado a aproximadamente 15 km, no alto de uma colina de onde
se pode obter lindas vistas sobre a cidade. Reza a lenda , que foi
eregido naquele local porque um elefante branco que carregava um osso
mágico do ombro de Buda ( possivelmente para vir a ser colocado em
mais um daqueles Chedi de que falei há uns posts atrás) escolheu
aquele sítio para morrer.
Infelizmente
faltou-nos ver este templo pelo que teremos de voltar aqui também se
tiver tanto tempo de vida quanto aquele que preciso
para conseguir ver tudo o que quero e ainda rever tudo o que não
vi quando devia ter visto...se é que me faço entender...
Bom,
adiante...
Dado
o nosso curto período de férias e o grande interesse que
tínhamos em estender ainda a viagem aos templos de Angkor no
Camboja, não nos sobraram senão uns míseros três dias de
férias pela região. E claro que, nesses parcos dias queríamos
simplesmente ver “tudo e mais alguma coisa”. Ver toda a cidade,
visitar o Triangulo dourado atravessando a fronteira do Laos e
Myanmar, conhecer a tribo das mulheres girafa, navegar pelo rio
Mekong, fazer rafting no rio Ping, fazer trekkings na selva, andar de
elefante e tudo o mais que fosse possível fazer em três dias
arrastando as crianças a reboque.
Por
isso, logo que pousámos as bagagens, entrámos na primeira lojeca da
rua e, por uns poucos baths, comprámos umas lindas e psicadélicas
capas plásticas multicolores, que enfiámos pela cabeça á laia de
preservativo gigante e que fariam certamente as delícias de
qualquer designer de moda da “haute couture parisienne”
Fomos
ainda brindados por uma enorme birra da minha filha mais nova (ei-la
no seu maior esplendor de novo), que não se cativou com a moda do
saco de plástico vá lá saber-se porquê e resolveu encantar os
transeuntes com uma choradeira de caixão á cova, capaz de fazer
crescer cabelo a qualquer monge só para o pôr em pé.
Embrenhamo-nos,
assim plastificados, pelas ruas até á cidade antiga, a zona
muralhada e vellha da povoação. Chiang Mai cresceu dentro dessas
muralhas como forma de se proteger das invasões birmanesas o que
pelos vistos não resultou nada pois a Birmânia teve controlo
da região por alguns dois séculos :/
A
cidade antiga, além de esconder inúmeros templos belíssimos, é
também o local ideal para saborear uma esplêndida refeição thai.
Além das inúmeras tascas que espreitam de todos os cantos da
cidade, na zona dentro das muralhas existem também lindos
restaurantes pomposamente decorados á boa moda tailandesa, cheios de
bambus, orquídeas, panos de seda e afins.
Optámos
por um local lindíssimo para jantar e relaxar depois de um dia
extenuante. Um restaurante de espaço amplo e totalmente aberto para
a rua onde lindos baloiços de bambu pendurados no teto nos serviam
de banco.
Optámos
por um local lindíssimo para jantar e relaxar depois de um dia
extenuante. Um restaurante de espaço amplo e totalmente aberto para
a rua onde lindos baloiços de bambu pendurados no teto nos serviam
de banco.
Deliciámo-nos
com todo o tipo iguarias deliciosas como os excelentes vegetais ou
rebentos de bambu salteados, caril de tudo e mais alguma coisa,
molhangas mais e menos picantes e toda uma vasta coleção de pratos
de babar, sempre acompanhados claro está, pelo perfumadíssimo arroz
thai…(nham)
Naturalmente,
temos de ter em conta que da decoração faz parte também uma ou
outra barata (e quem diz barata, diz rato), que possa passar perto.
Mas chega a um ponto que já nem se estranha. Desde que não venham
no prato…
Se
bem que no dia seguinte vasculhamos o mercado nocturno de lés a
lés em busca da afamada bicharada frita, viscosa ou crocante
mas para nosso grande azar não demos com nada...(!)
Foi
uma pena pois estavamos bastante entusiasmadose e já
faziamos apostas e tudo.
Enfim
lá tivemos de comer uma lagosta que certamente ganhou por
muitos pontos a qualquer gafanhoto estaladiço que aparecesse.
E
para ajudar a fazer a digestão nada como um show travesti á boa
moda tailandesa com "lindas mulheres" de pezinho 45 e
biqueira larga. hehehehe
No
dia seguinte partimos para o triangulo dourado.
A
viagem foi longa e cansativa com várias paragens pelo caminho. Ainda
assistimos a um grave acidente rodoviário onde faleceram oito
pessoas, que foi noticia em todos os jornais da região e tornou a
longa viagem ainda mais dolorosa.
As
pessoas empilham-se em carrinhas/taxi que viajam em velocidades
alucinantes para serem os primeiros táxis a chegar aos locais de
recolha e assim assegurar mais clientes. Por vezes corre mal e
infelizmente este tipo de acidentes é bastante comum.
A
primeira paragem foi em Hot Springs, um género de furnas tailandesas
com imenso cheiro a enxofre onde se pode ver a água quente a brotar
do solo a uns escaldantes 90º Celcius e cozer ovinhos nas poças de
água borbulhante. Além disso seria o local ideal de compra de
souvenirs dada a quantidade de bancas a vender quinquilharia. Pena
que o que se vende é só isso mesmo: quinquilharia chinesa que
infelizmente já não recorda região nenhuma em particular e vê-se
igual em todo o lado.
Antes
de chegar ao destino ainda parámos no bizarro Wat Rong Khun, ,
também conhecido como white temple e que se situa nos arredores de
Chiang Rai.
E
digo bizarro porque apesar de ao longe ter uma beleza singela e quase
celestial (que se deve ao facto de ser totalmente construído em
branco e espelho) a verdade é que este templo budista e hindu é uma
construção contemporânea e pouco convencional (para não dizer
excêntrica) em tudo diferente de todos os outros templos que já
vi.
È
uma obra muito recente que representa o céu e o inferno e onde para
entrar tem de se atravessar uma ponte como se de um ritual de
purificação se tratasse. Esta ponte por sua vez atravessa um mar de
mãos que surgem do chão como almas desesperadas emergindo das
trevas.
Por
fim, quando entramos no templo somos surpreendidos por imagens nas
paredes completamente fora do contexto (ou não). É possível
observar pinturas de personagens como o Super - Homem e o Neo, do
filme Matrix ali representados como defensores do mal, ou a
representação da queda das torres gémeas fazendo alusão a
samsara, o ciclo de renascimentos defendido pelas religiões em
causa.
Mas
temos que admitir que ir a um templo budista de aspecto imaculado e
encontrar o Predator a sair do chão é no minimo surreal…
Depois
de mais umas paragenzecas aqui e ali, rematámos o trajecto com
varios quilometros de terra batida elameada ladeados por extensos
arrozais para por fim chegar ao triangulo dourado.
O
rio Mekong estende-se á nossa frente de aspecto lamacento como uma
serpente castanha que atravessa o sudeste asiático. A sua imensidão
faz juz ao titulo de “um dos maiores rios do mundo”.
Exactamente
naquele ponto o rio Ruak converge com o Mekong e essa bifurcação
delinea a fronteira de três países: o Laos, a Tailândia e a antiga
Birmânia, actual Myanmar. A localização era por isso a ideal ao
trafico de ópio que circulava facilmente em troca de ouro, dando
assim nome à região.
Atravessamos
o rio até à outra margem. Uma precária visita ao Laos que nos
valeu um não merecido carimbo no passaporte.
Apinhavam-se
barracas a vender t-shirts, mais quinquilharias e alguns objectos
interessantes alusivos ao tráfico de ópio. Aos turistas mais
corajosos era gentilmente oferecida uma welcome drink que consistia
num tipo de aguardente onde jaziam os cadaveres de alguns repteis da
zona, como se fossem especies em estudo preservadas em formol num
qualquer laboratorio ocidental.
Nesse
dia, o ponto alto foi, sem dúvida alguma, a chegada a Ban Nai Soi
onde pudemos visitar a aldeia da tribo Karen, para ver, mais
especificamente, o subgrupo destra tribo: os Padaung, uma minoria
étnica também conhecida como tribo das mulheres girafa.
Este
momento marcante da viagem foi o principal motivo para nos
deslocarmos a um local tão remoto obrigando-nos a tantas horas de
caminho. E muito embora me tenha impressionado, só posso dizer que
valeu cada minuto de viagem, cada kilometro pela lição de vida que
foi.
Em
miuda folheei vezes sem conta um livro sobre a diversidade humana que
o meu pai tinha comprado através da mítica “Selecções Readers
Digest” numa das inúmeras “oportunidades únicas” que
promoviam diáriamente.
Nunca
lhe ocorreu certamente o quão marcante foi para mim. Penso que nem
me recordo muito bem de todas as outras fotos que ilustravam o
magnifico volume elegantemente encadernado, pois sempre que folheava
as suas páginas perdia-me fascinada nas mesmas imagens das long neck
woman com os seus pescoços deformadamente alongados por inúmeras
argolas de latão.
Conta
a lenda que o uso dos colares, inicialmente feitos de ouro serviriam
para as proteger de ataques de tigres ou de maus espíritos. A
verdade é que hoje em dia ainda se mantém este velho habito, não
só por uma questão estética mas acima de tudo devido a interesses
turísticos.
A
visita à aldeia levanta-nos muitas questões. O local consiste num
punhado de casas dispostas em frente umas das outras onde as mulheres
vendem artesanato, mostram alguns costumes de tecelagem e acima de
tudo se expõem para que possam ser fotografadas pelos turistas
ávidos de trazer de volta ao seu país um pouco do exoticismo das
suas andanças. Enfim, um triste espectaculo montado para turista
ver.
Naturalmente
esta minha opinião não lhes tira o encanto. Elas são de facto
extraordinarias e ninguem lhes fica indiferente.
Como
levavamos crianças connosco, fazer comparações com as meninas
Paduang foi inevitavel.
As
argolas começam a ser colocadas em tenra idade, perto dos cinco
anos. Começa aí o processo de deformação e na fase adulta
poderão já ter uns incriveis 12kilos de metal ao pescoço. E esta
tortura no fundo mantem-se para que outros turistas como nós
continuem a vir á região. É um autêntico murro no estômago.
Mas
depois a explicação que nos deram:
A
tribo é de origem birmanesa e refugiou-se na Tailândia para fugir
do regime militar que vivia então o seu país. Sem autorização
para se legalizarem foi igualmente recusado o regresso a Myanmar.
Dada esta situação, as crianças não têm por isso acesso a
qualquer tipo de instrucção e os adultos não podem trabalhar.
Por
outro lado segundo me foi dito, o estado tailandês deu-lhes um
espaço para ficar mas pelos vistos não dá as restantes condições,
talvez pelo interesse turistico que a tribo traz á região. As
visitas á aldeia promovidas pelo turismo são, a curto prazo,
o único meio de subsistência. A situação é muito triste e saímos
de lá com um misto de pena, angustia e revolta. Revolta contra a
Tailândia, contra Myanmar e contra nós mesmos que, enquanto
turistas, mantemos a engrenagem do negócio a funcionar.
O
ultimo dia pelo norte tailandês foi preenchido por actividades menos
culturais e mais de lazer. Começamos com um passeio de elefante que
longe de ser um passeio relaxante para apreciar a paisagem verdejante
das margens do rio Ping, transformou-se num género de passeio todo o
terreno a roçar o radical. Seguimos em fila junto ao rio, subimos e
descemos ravinas, fomos até à água e quase
escorregámos encosta abaixo por tentar trepar trilhos
barrentos.
Depois
de almoço: trekking. Embrenhamo-nos selva adentro por 3 horas até
alcançarmos umas cascatas lindissimas onde o pai e as suas filhas mergulharam
de cuecas. Um momento sublime.
Por ultimo
descemos o rio numa jangada de bambus finalizando com um passeio de
raft numa batalha épica contra os rápidos.
Como
nem sequer tinhamos ido preparados para as actividades no rio,
acabámos por voltar a Chiang Mai que nem uns pintos
enlameados. Sim pingávamos agua por todo o lado, deixavamos pegadas
barrentas á nossa passagem…mas connosco vinha um sorrisinho
maravilhosamente parvo de orelha a orelha que ainda surge quando
falamos nesses dias. ;)
Next
flight: Cambodia.


Sem comentários:
Enviar um comentário