quarta-feira, 23 de abril de 2014

Tailândia do meu coração - Chiang Mai


Depois de um voo curto com inicio em Bangkok aterrámos finalmente em Chiang Mai debaixo de uma imensa chuvada. O céu cinzento e a chuva que insistia em cair formaram a nossa primeira imagem daquela que é a principal cidade do norte da Tailândia, também conhecida por “rosa do norte”.



Francamente mais pequena que a capital, a cidade goza de uma vida mais simples e prazenteira sendo totalmente rodeada de montanhas cobertas de vegetação luxuriante e banhada pelo rio Ping, um afluente do rio Chao Phraya.


Chiang Mai é por muitos considerada o epicentro cultural e espiritual do país tendo sido construída em 1296 , pouco depois da antiga capital do reino de Sião, Sukhothai , por ter uma localização estratégica na rota da seda e para  poder vir a ser capital ao reino Lanna.



A sensação que temos á chegada é a de que ali estamos mais perto do que é a verdadeira Tailândia. Exatamente aquela que esperamos ver quando decidimos visitar o país. É uma região de grande interesse turístico, não só pela vastidão cultural da cidade como por toda a região adjacente ter um leque variadíssimo de “must see” e “must do”.

Além disso, e por ser uma antiga capital espiritual do reino, a cidade goza de uma imensidão de templos (quase 300) além de outros espalhados pela região.


De todos o mais conhecido é o Wat Phrathat Doi Suthep que data de 1383. Fica situado a aproximadamente 15 km, no alto de uma colina de onde se pode obter lindas vistas sobre a cidade. Reza a lenda , que foi eregido naquele local porque um elefante branco que carregava um osso mágico do ombro de Buda ( possivelmente para vir a ser colocado em mais um daqueles Chedi de que falei há uns posts atrás) escolheu aquele sítio para morrer.

Infelizmente faltou-nos ver este templo pelo que teremos de voltar aqui também se tiver tanto tempo de vida quanto aquele que preciso para conseguir ver tudo o que quero e ainda rever tudo o que não vi quando devia ter visto...se é que me faço entender...


Bom, adiante...
Dado o nosso curto período de férias  e o grande interesse que tínhamos em estender ainda a viagem aos templos de Angkor no Camboja, não nos sobraram senão uns míseros três dias de férias pela região. E claro que, nesses parcos dias queríamos simplesmente ver “tudo e mais alguma coisa”. Ver toda a cidade, visitar o Triangulo dourado atravessando a fronteira do Laos e Myanmar, conhecer a tribo das mulheres girafa, navegar pelo rio Mekong, fazer rafting no rio Ping, fazer trekkings na selva, andar de elefante e tudo o mais que fosse possível fazer em três dias arrastando as crianças a reboque.

Por isso, logo que pousámos as bagagens, entrámos na primeira lojeca da rua e, por uns poucos baths, comprámos umas lindas e psicadélicas capas plásticas multicolores, que enfiámos pela cabeça á laia de preservativo gigante  e que fariam certamente as delícias de qualquer designer de moda da “haute couture parisienne”


Fomos ainda brindados por uma enorme birra da minha filha mais nova (ei-la no seu maior esplendor de novo), que não se cativou com a moda do saco de plástico vá lá saber-se porquê e resolveu encantar os transeuntes com uma choradeira de caixão á cova, capaz de fazer crescer cabelo a qualquer monge só para o pôr em pé.


Embrenhamo-nos, assim plastificados, pelas ruas até á cidade antiga, a zona muralhada e vellha da povoação. Chiang Mai cresceu dentro dessas muralhas como forma de se proteger das invasões birmanesas o que pelos vistos não resultou nada pois a Birmânia teve controlo da região por alguns dois séculos :/

A cidade antiga, além de esconder inúmeros templos belíssimos,  é também o local ideal para saborear uma esplêndida refeição thai. Além das inúmeras tascas que espreitam de todos os cantos da cidade, na zona dentro das muralhas existem também lindos restaurantes pomposamente decorados á boa moda tailandesa, cheios de bambus, orquídeas, panos de seda e afins.


Optámos por um local lindíssimo para jantar e relaxar depois de um dia extenuante. Um restaurante de espaço amplo e totalmente aberto para a rua onde lindos baloiços de bambu pendurados no teto nos serviam de banco.
Deliciámo-nos com todo o tipo iguarias deliciosas como os excelentes vegetais ou rebentos de bambu salteados, caril de tudo e mais alguma coisa, molhangas mais e menos picantes e toda uma vasta coleção de pratos de babar, sempre acompanhados claro está, pelo perfumadíssimo arroz thai…(nham)
Naturalmente, temos de ter em conta que da decoração faz parte também uma ou outra barata (e quem diz barata, diz rato), que possa passar perto. Mas chega a um ponto que já nem se estranha. Desde que não venham no prato…



Se bem que no dia seguinte vasculhamos o mercado nocturno de lés a lés em busca da afamada bicharada frita, viscosa ou crocante  mas para nosso grande azar não demos com nada...(!)
Foi uma pena pois estavamos bastante entusiasmadose e já faziamos apostas e tudo.

Enfim lá tivemos de comer uma lagosta  que certamente ganhou por muitos pontos  a qualquer gafanhoto estaladiço que aparecesse.

E para ajudar a fazer a digestão nada como um show travesti á boa moda tailandesa com "lindas mulheres" de pezinho 45 e biqueira larga. hehehehe

No dia seguinte partimos para o triangulo dourado.

A viagem foi longa e cansativa com várias paragens pelo caminho. Ainda assistimos a um grave acidente rodoviário onde faleceram oito pessoas, que foi noticia em todos os jornais da região e tornou a longa viagem ainda mais dolorosa.
As pessoas empilham-se em carrinhas/taxi que viajam em velocidades alucinantes para serem os primeiros táxis a chegar aos locais de recolha e assim assegurar mais clientes. Por vezes corre mal e infelizmente este tipo de acidentes é bastante comum.

A primeira paragem foi em Hot Springs, um género de furnas tailandesas com imenso cheiro a enxofre onde se pode ver a água quente a brotar do solo a uns escaldantes 90º Celcius e cozer ovinhos nas poças de água borbulhante. Além disso seria o local ideal de compra de souvenirs dada a quantidade de bancas a vender quinquilharia. Pena que o que se vende é só isso mesmo: quinquilharia chinesa que infelizmente já não recorda região nenhuma em particular e vê-se igual em todo o lado.
Antes de chegar ao destino ainda parámos no bizarro Wat Rong Khun, , também conhecido como white temple e que se situa nos arredores de Chiang Rai.

E digo bizarro porque apesar de ao longe ter uma beleza singela e quase celestial (que se deve ao facto de ser totalmente construído em branco e espelho) a verdade é que este templo budista e hindu é uma construção contemporânea e pouco convencional (para não dizer excêntrica) em tudo diferente de todos os outros templos que já vi. 


È uma obra muito recente que representa o céu e o inferno e onde para entrar tem de se atravessar uma ponte como se de um ritual de purificação se tratasse. Esta ponte por sua vez atravessa um mar de mãos que surgem do chão como almas desesperadas emergindo das trevas.

Por fim, quando entramos no templo somos surpreendidos por imagens nas paredes completamente fora do contexto (ou não). É possível observar pinturas de personagens como o Super - Homem e o Neo, do filme Matrix ali representados como defensores do mal, ou a representação da queda das torres gémeas fazendo  alusão a samsara, o ciclo de renascimentos defendido pelas religiões em causa.

Mas temos que admitir que ir a um templo budista de aspecto imaculado e encontrar o Predator a sair do chão é no minimo surreal…
Depois de mais umas paragenzecas aqui e ali, rematámos o trajecto com varios quilometros de terra batida elameada ladeados por extensos arrozais para por fim chegar ao triangulo dourado.

O rio Mekong estende-se á nossa frente de aspecto lamacento como uma serpente castanha que atravessa o sudeste asiático. A sua imensidão faz juz ao titulo de “um dos maiores rios do mundo”.

Exactamente naquele ponto o rio Ruak converge com o Mekong e essa bifurcação delinea a fronteira de três países: o Laos, a Tailândia e a antiga Birmânia, actual Myanmar. A localização era por isso a ideal ao trafico de ópio que circulava facilmente em troca de ouro, dando assim nome à região.

Atravessamos o rio até à outra margem. Uma precária visita ao Laos que nos valeu um não merecido carimbo no passaporte.
Apinhavam-se barracas a vender t-shirts, mais quinquilharias e alguns objectos interessantes alusivos ao tráfico de ópio. Aos turistas mais corajosos era gentilmente oferecida uma welcome drink que consistia num tipo de aguardente onde jaziam os cadaveres de alguns repteis da zona, como se fossem especies em estudo preservadas em formol num qualquer laboratorio ocidental.

Nesse dia, o ponto alto foi, sem dúvida alguma, a chegada a Ban Nai Soi onde pudemos visitar a aldeia da tribo Karen, para ver, mais especificamente, o subgrupo destra tribo: os Padaung, uma minoria étnica também conhecida como tribo das mulheres girafa.
Este  momento marcante da viagem foi o principal motivo para nos deslocarmos a um local tão remoto obrigando-nos a tantas horas de caminho. E muito embora me tenha impressionado, só posso dizer que valeu cada minuto de viagem, cada kilometro pela lição de vida que foi.


Em miuda folheei vezes sem conta um livro sobre a diversidade humana que o meu pai tinha comprado através da mítica “Selecções Readers Digest” numa das inúmeras “oportunidades únicas” que promoviam diáriamente.
Nunca lhe ocorreu certamente o quão marcante foi para mim. Penso que nem me recordo muito bem de todas as outras fotos que ilustravam o magnifico volume elegantemente encadernado, pois sempre que folheava as suas páginas perdia-me fascinada nas mesmas imagens das long neck woman com os seus pescoços deformadamente alongados por inúmeras argolas de latão.
Conta a lenda que o uso dos colares, inicialmente feitos de ouro serviriam para as proteger de ataques de tigres ou de maus espíritos. A verdade é que hoje em dia ainda se mantém este velho habito, não só por uma questão estética mas acima de tudo devido a interesses turísticos. 


A visita à aldeia levanta-nos muitas questões. O local consiste num punhado de casas dispostas em frente umas das outras onde as mulheres vendem artesanato, mostram alguns costumes de tecelagem e acima de tudo se expõem para que possam ser fotografadas pelos turistas ávidos de trazer de volta ao seu país um pouco do exoticismo das suas andanças. Enfim, um triste espectaculo montado para turista ver.

Naturalmente esta minha opinião não lhes tira o encanto. Elas são de facto extraordinarias e ninguem lhes fica indiferente.

Como levavamos crianças connosco, fazer comparações com as meninas Paduang foi inevitavel.
As argolas começam a ser colocadas em tenra idade, perto dos cinco anos. Começa aí o processo de deformação e  na fase adulta poderão já ter uns incriveis 12kilos de metal ao pescoço. E esta tortura no fundo mantem-se para que outros turistas como nós continuem a vir á região. É um autêntico murro no estômago.

Mas depois a explicação que nos deram:
A tribo é de origem birmanesa e refugiou-se na Tailândia para fugir do regime militar que vivia então o seu país. Sem autorização para se legalizarem foi igualmente recusado o regresso a Myanmar. Dada esta situação, as crianças não têm por isso acesso a qualquer tipo de instrucção e os adultos não podem trabalhar.

Por outro lado segundo me foi dito, o estado tailandês deu-lhes um espaço para ficar mas pelos vistos não dá as restantes condições, talvez pelo interesse turistico que a tribo traz á região. As visitas á aldeia promovidas pelo turismo são,  a curto prazo, o único meio de subsistência. A situação é muito triste e saímos de lá com um misto de pena, angustia e revolta. Revolta contra a Tailândia, contra Myanmar e contra nós mesmos que, enquanto turistas, mantemos a engrenagem do negócio a funcionar.


O ultimo dia pelo norte tailandês foi preenchido por actividades menos culturais e mais de lazer. Começamos com um passeio de elefante que longe de ser um passeio relaxante para apreciar a paisagem verdejante das margens do rio Ping, transformou-se num género de passeio todo o terreno a roçar o radical. Seguimos em fila junto ao rio, subimos e descemos ravinas, fomos até à água e quase escorregámos encosta abaixo por tentar trepar trilhos barrentos.
Depois de almoço: trekking. Embrenhamo-nos selva adentro por 3 horas  até alcançarmos umas cascatas lindissimas onde o pai e as suas filhas mergulharam de cuecas. Um momento sublime.
Por ultimo descemos o rio numa jangada de bambus finalizando com um passeio de raft numa batalha épica contra os rápidos.
Como nem sequer tinhamos ido preparados para as actividades no rio, acabámos por voltar a Chiang Mai  que nem uns pintos enlameados. Sim pingávamos agua por todo o lado, deixavamos pegadas barrentas á nossa passagem…mas connosco vinha um sorrisinho maravilhosamente parvo de orelha a orelha que ainda surge quando falamos nesses dias. ;)
Next flight: Cambodia.

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